Bem aventurado - Mateus - Conversa 02

Bem aventurado - Mateus - Conversa 02

Transcrição do áudio da segunda conversa do estudo 'Bem aventurado'

Bem aventurado - Mateus - Conversa 02

A caridade

Estamos estudando o Novo Testamento, ou seja, o novo acordo de Deus com os espíritos encarnados feito através de Cristo, o intermediário desse acordo. Ele contém uma série de orientações que, se seguidas, fazem o ser encarnado ganhar a bem aventurança, a felicidade que os santos sentem. .

Estamos vendo primariamente o Evangelho de Mateus. Vamos continuar agora.

“Tenham o cuidado de não praticarem os seus deveres religiosos em público a fim de serem vistos pelos outros. Se vocês agirem assim, não receberão nenhuma recompensa do Pai de vocês, que está no céu.

Quando você der alguma coisa a uma pessoa necessitada, não fique contando o que fez, como os hipócritas fazem nas sinagogas e nas ruas. Eles fazem isso para serem elogiados pelos outros. Eu afirmo a vocês que isto é verdade: eles já receberam a sua recompensa. Mas você, quando ajudar alguma pessoa necessitada, faça isso de tal modo que nem mesmo o seu amigo mais íntimo fique sabendo do que você fez. Isso deve ficar em segredo; e o seu Pai, que vê o que você faz em segredo, lhe dará a recompensa.” (Mt. 6, 1 a 5)

A caridade não é algo que se faz em público, ou seja, não é para fazer na frente dos outros, não se deve ficar falando que fez. Segundo o acordo, o ser não deve ficar se auto elogiando como se fosse melhor do que os outros porque está fazendo a caridade. Esse é o primeiro aspecto.

Quer ajudar alguém, ajude. Você e a pessoa ficam sabendo o que aconteceu, se for preciso que ela saiba, já que as vezes nem para ela precisa contar. Quanto aos demais, para que saber?

Isso é simples de se extrair do ensinamento. Mas, há outras lições sobre a caridade. Vamos vê-la.

Tem um aspecto muito interessante nesse texto para quem busca a felicidade: “eu digo para vocês que isto é verdade. Aquele que faz propaganda da caridade que dá já recebeu o que tinha que receber.” O que quem faz a propaganda já recebeu? Reconhecimento, glória, fama. O que não receberá? A bem aventurança.

Dessa pequena parte do texto trazido por Cristo Então podemos ter consciência de uma coisa muito importante: a bem-aventurança não pode ser recebida ao mesmo tempo que a glória material. Quem recebe a glória material não recebe a bem-aventurança. Se o fizesse, Deus estaria dando dois prêmios para quem praticou um ato só.

Aquele que faz a caridade material e recebe em vida o reconhecimento não é candidato a receber a bem-aventurança. Por isso, é preciso que aquele que assina esse pacto com Deus tenha a consciência disto e que não cobre, não exija nada materialmente, não só pela caridade material, mas também por qualquer ajuda ao próximo moral, sentimental.

Quem ajuda o próximo não pode esperar reconhecimento. ‘Olha como aquele é um bom médium... Ele trabalha muito bem, que maravilha!’ Quem espera essa retribuição não receberá a bem aventurança como recompensa pelo seu trabalho. O reconhecimento pode acontecer no mundo material como carma, mas não pode ser desejado, esperado ou querido.

Essa consciência some no meio do assunto caridade no Sermão do Monte, mas está presente e é importante colocarmos: aquele que faz propaganda, deseja o reconhecimento por ter prestado a caridade, já recebeu o que tinha para receber. Por isso, não receberá a bem-aventurança.

Outro detalhe importante sobre o tema. Quando se fala em caridade, não devemos nos esquecer de algo que vai ser falado mais a frente: não é dar o peixe, mas a vara e ensinar a pescar.

Caridade é muito mais do que dar, suprir simplesmente necessidades. Já estudamos isso em O Livro dos Espíritos: caridade é benevolência, indulgência e perdão com o próximo. Mas, isso vamos ver mais tarde dento do nosso acordo.

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A oração

“Quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelos outros. Eu afirmo a vocês que isto é verdade: eles já receberam a sua recompensa. Mas você, quando orar, vá para o seu quarto, feche a porta e ore ao seu Pai, que não pode ser visto. E o seu Pai, que vê o que você faz em segredo, lhe dará a recompensa.” (Mt. 6, 5 e 6)

O que é orar? O que é uma oração? É uma prática religiosa. Por isso, posso estender o que Cristo fala aqui não somente ao ato de orar, mas a toda prática religiosa de uma ser humanizado.

Como o assinante desse pacto com Deus deve realizar a sua prática religiosa? Sem a necessidade de ir à igreja, ao centro, ao terreiro ou ao templo. A prática religiosa é feita no íntimo de cada um.

Tem muitos que vão ao centro ou a qualquer outro lugar para realizar a sua prática religiosa, mas não a está realizando dentro de si. Que adianta ir? Participam da palestra, da gira ou seguem todos os rituais da missa e do culto, mas o seu mundo interno está em outra parte. De que adianta estar presente fisicamente ao acontecimento?

Esses já receberam o que tinham que receber. O que foi? O prazer de estar ali. A realização do ato desejado: estar ali. Eles não vão receber mais nada, como por exemplo a bem aventurança. Já aquele que pratica a sua religiosidade dentro do seu mundo interno, estando dentro do centro ou não, recebe o que é prometido por cumprir o acordo.

Participante: mas o que seria praticar essa religiosidade?

Sua fé.

A religiosidade tem doutrina e rito. Na religiosidade se pratica o rito. Por exemplo, meditação.

Meditar é um rito de uma religiosidade. A prática desse rito religioso deve ser feita no seu íntimo, não no seu mundo externo. Quem sabe disso, ao invés de se preocupar com posições do corpo que mostrem a meditação, ocupa-se com o pensar os seus pensamentos.

Todo o ritualismo religioso deve ser feito no interno e só ocupar-se com ele. Por isso pode ser feito em qualquer lugar e a qualquer momento, ao invés de se preocupar com o dia certo para ir para o centro ou igreja ou com a forma externa de fazer a meditação.

Participante: nós espiritualistas que seguimos seus ensinamentos, falando por mim, depois de estudar e praticá-los não consigo fazer praticamente mais nada de rituais.

Nenhum problema. Estou comentando porque tem gente que mesmo depois de ouvir ainda reza, faz oração, meditação, acende vela para Santo. Isso não tem problema, é ato. Pode acontecer ...

Para quem ainda pratica tais ações fica o conselho: tudo isso tem que ser vivido internamente não externamente. Quem faz preocupado com o externo faz para que outros vejam. Esses já receberam o que mereciam.

Participante: eu não faço nada.

Não tem problema, mas tem gente que faz.

Se o que estou falando não serve para você porque não pratica nenhum ritual religioso, ótimo, louvado seja Deus. Agora, não se esqueça que o ato de pensar nos ensinamentos, como você faz, é um ritual religioso. É um ato que está ligado a uma doutrina religiosa. Isso é um ritual

Participante: pode-se falar que a oração seria um sintonização, não importa o ato que seja praticado?

Pode. Se você usar ela para sintonizar.

Tem muita gente que usa a prece para outras coisas e não para se sintonizar. Por isso não se sintoniza durante a prece.

“Nas suas orações, não fiquem repetindo o que vocês já disseram, como fazem os pagãos. Eles pensam que Deus os ouvirá porque fazem orações compridas. Não sejam como eles, pois, antes de vocês pedirem, o Pai de vocês já sabe o que vocês precisam antes de pedirem.” (Mt. 6, 7 e 8)

Esse é outro detalhe desse item do acordo. A oração, como um ato religioso, não pode ser feita com nenhuma intencionalidade. Nenhuma.

‘Não peço nada, só rezo para ter mais saúde’, ‘não peço nada para mim, apenas quero ajudar meu vizinho que está com câncer’. Parecem coisas puras, boas, mas contém intencionalidade. Por isso não devem existir durante a prática da oração no seu íntimo.

Participante: porque não pode?

É como se você dissesse: ‘Deus eu quero que seja feito isso...’ Mesmo que aparentemente contenham boas intenções, mostra o não aceitamento dos desígnios de Deus.

Participante: mas eu pedindo, se Ele quiser fazer faz, se não, não faz ...

Ah, mas essa condicionalidade no pedido não está presente na oração. Esse é o problema.

Se ao pedir demonstrasse sua predisposição para aceitar os desígnios Dele, não haveria problema. Acontece que quando ora pedindo alguma coisa está sempre presente no seu íntimo a esperança que Ele faça o que você quer, o por que rezou.

Esse é o problema. Noventa e nove vírgula nove por cento das pessoas que pedem algo durante a oração esperam que Deus as ouça, ou seja, atenda o pedido. Se não conseguir sofre. É por isso que não pode pedir nada, mesmo que aparentemente seja algo do bem. Lembre-se: quem age com intenção não se entrega a Deus. Deus: vida, energia, o que quiser que Ele seja.

Quem espera receber algo, tem intenção, está se entregando a si mesmo. Digo isso porque como condiciona a felicidade, só será feliz se acontecer o que pediu. Nesse caso, não é felicidade, mas prazer, felicidade condicionada.

Participante: a respeito desse assunto, uma vez tive uma lição de uma moça japonesa que era caixa do banco. Estava chovendo e eu falei pra ela “que droga, não gosto de chuva”. Estava com um mal humor ...” Ela falou exatamente isso: tem que ser feliz com qualquer tempo, com sol, com chuva...

Até porque a comida não nasce no supermercado, é preciso chuva para ela crescer e você poder comer. Como diz as pessoas que plantam, quando chove o tempo está bom, pois garante que haverá o que colher.

Bem aventurado - Mateus - Conversa 02

O Pai Nosso

Agora vamos ver a oração do Pai Nosso.

“Portanto, orem assim:” (Mt. 6, 9)

Vou fazer o adendo que fiz antes: oração não são palavras, são caminhos. As palavras da oração são um guia de como você deve viver. Viver em oração.

“Pai nosso,” (Mt. 6,9)

Quando vocês oram, têm a consciência de que Ele é o Pai de todos? Acho que não.

Pai dá as coisas só para um filho? Sim. Só que o Pai de muitos filhos deve contemplar a todos e não apenas a um, não é verdade?

Orando com a consciência de que Ele é o Pai de todo mundo deverá saber que haverá hora que irá receber, mas em outras Ele terá que não lhe dar para poder dar a outro filho. Por isso, terá a consciência de que deve esperar que durante a vida haja momentos onde não seja contemplado, pois o Pai estará dando para os outros, que também são filhos Dele.

Quem pratica essa oração deve viver sabendo que quando não ganhou o que queria é porque o Pai, que é de todos, deu para outro. Por isso deve exercitar a sua paciência e aguardar a sua vez. Vivendo assim, não há motivo para sofrer quando não se recebe o que quer.

É por causa do que estamos falando agora que disse em outra palestra: para um ganhar, outro tem que perder. Na hora que você perdeu, alguém ganhou. Fique feliz porque o Pai atendeu o seu irmão.

Mas, porque alguém ganhou e não você? Porque o Pai é de todos e tem que atender igualmente aos seus filhos.

“que estás no céu” (Mt. 6,9)

‘Fica por aí mesmo e não vem para cá encher meu saco ...’ Como uma criança ou adolescente humano, isso é o que dizem quando o seu Pai se intromete na vida de vocês e dá o que não querem.

 O céu aí é a Perfeição, o lugar perfeito. Ele é habitado por seres perfeitos. Então, quando ora o Pai Nosso na sua existência, vive a partir dele, reconhece que está se dirigindo a um ser que pratica a Perfeição e por isso tudo que Dele advém é Perfeito. Mais: reconhece que não está nesse lugar, ou seja, que não é perfeito.

É aquilo que já falamos: superioridade moral. Se não reconhece que Ele é moralmente superior a você, o que recebe, o que está acontecendo. Só que avalia as coisas pelas suas verdades. Julga a Deus e O condena por não fazer as coisas dentro do que você quer. Só que suas verdades são imperfeitas. Por isso, a sentença dada a Deus é injusta.

Participante: posso entender céu, não como um espaço físico, mas como um estado de espírito?

Céu, espaço físico, é esse buraco que veem quando olham para cima. Como esse livro que estamos vendo não é de geografia, mas um tratado espiritualista, precisa ser encarado como o lugar da Perfeição. Uma dimensão, um plano espiritual elevado ...

O nome não importa para o nosso estudo. O importante é saber que os habitantes do céu são perfeitos

Participante: não posso entender aqui que céu é algo interno, que está dentro de nós?

Não. Nesse caso é o reconhecimento da perfeição.

Não está se falando do reino do céu, do ponto máximo dá existência espiritual. Aqui apenas se quer dizer que é preciso reconhecer a superioridade moral do Pai.

“que todos reconheçam que o teu nome é santo.” (Mt. 6, 9)

Por ter essa superioridade moral é preciso, para ter a bem aventurança, que se reconheça que Ele tem em si a santidade:

O que é ser santo? Ser justo e amoroso. Santo é aquele que é perfeitamente justo e perfeitamente amoroso. Perfeito no amor, perfeito na justiça.

Participante: e quem pode se considerar santo?

Deus. Só Ele.

Participante: e estes santos criados pela Igreja Católica?

São santos, para a Igreja Católica.

Para a doutrina Católica, eles possuem a perfeição católica. Por isso são considerados santos. Viveram de acordo com a Doutrina Católica.

Os santos da Umbanda são perfeitos porque produzem dentro da Doutrina da Umbanda. Eles entendem a justiça e o amor a partir do preconizado por aquela doutrina. Então, são santos para aquela doutrina.

Participante: E quando se ora para um santo?

Você está orando para um Ser que é superior a você, mas ainda não chegou à Santidade Universal. Ainda não chegou ao Céu.

Antes que me pergunte, com certeza são superior porque eles não estão encarnados e você está.

Participante: mas, isso não o faz superior. Só porque não está encarnado...

Sim, porque não está nem neste orbe.

Participante: e esses trastes que a gente pega no caminho? Eles estão desencarnados e não são superiores ...

Não, esses não estão desencarnados: estão encarnados sem carne. Apesar de não terem carne, vivem como ser humano.

O desencarne não se dá quando você está na carne ou não. O desencarne se dá quando se liberta do egoísmo, que é a característica do ser humano.

Participante: a gente pode considerar os Mestres como santos?

Os Mestres não. Eles estão em outra classe. São os enviados a esse mundo (Cristo, Buda, Krishna, Espírito da Verdade) não. Os mentores ou os médiuns dos mestres (Jesus, Sidarta Gautama, etc.) pode considerar assim.

“Venha o teu Reino.” (Mt. 6, 10)

O que você está pedindo quando ora esse trecho do Pai Nosso? Que viva o que for produzido pela santidade de Deus. Que você viva o Amor e a Justiça de Deus.

Já falamos sobre isso em outra palestra quando abordamos a questão da fome e sede de fazer a vontade de Deus. A vontade de Deus é o que está acontecendo. Quem ora pedindo que venha o Reino da santidade precisa amar tudo o que é produzido pelo Amor e pela Justiça.

Não estou falando em pedir para que venha alguma coisa, mas reconhecer que tudo que lhe ocorre vem de lá para cá, é fruto do seu pedido de receber o Reino. Rezar o Pai Nosso é expressar a vontade de receber o que vem e, por isso, não se revoltar contra o que vem.

“Que a tua vontade seja feita aqui na terra como é feita no céu.” (Mt. 6, 10)

Ou seja, quer que o fruto da Santidade, o Seu Amor e a Sua Justiça, aconteçam na Terra como acontece lá. Será que já não é assim? Será que aqui as coisas não correm como lá?

Claro que sim. A necessidade desse pedido estar incluso no tratado com Deus é porque vocês acham que aqui é diferente. Acham, por exemplo, que um bandido atirar em alguém não é um ato de Amor e Justiça. Só que é.

É preciso que esse item esteja presente para lembrar a vocês que tudo é uma coisa só. Vocês não podem rezar o Pai Nosso e isolar a Terra do Céu. Tudo é uma coisa só e fruto da mesma Santidade.

A oração do Pai Nosso é uma aceitação de que tudo que acontece aqui é fruto da ação desse Santo. Mais: uma declaração que quer receber o que Ele tem para dar: venha a mim o seu Reino.

Participante: quando isolamos caímos naquela situação em que ficamos eternamente buscando...

Não. Quando se isolam fazem outra coisa: querem ser Deus, a Santidade. Querem determinar o que tem que acontecer e julgar tudo que ocorre.

Na verdade, vocês rezam assim: ‘Pai Nosso que estais no Céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso Reino, mas nessa vida seja feita aquilo que eu quero, aquilo que acho certo, o que acho justo... ‘

É essa forma de viver que mostra a hipocrisia humana. De nada adianta rezar; é preciso viver os termos da oração. Por isso disse que a oração não são palavras, mas um código de vivência do acontecimento humano.

“Dá-nos hoje o alimento que precisamos.” (Mt. 6, 11)

Natural e normal se pedir isso, não?

Qual o alimento que precisam? Só lembrando porque a memória é curta: ‘nem só de pão vive o homem,’.

O alimento necessário para a existência é tudo que vem do céu: a bem aventurança, a paz, a harmonia e a felicidade. Você pode não ter um grão de comida mas se estiver em paz, está harmonizado. Pode estar com o armário cheio de comida, mas se não tiver paz não está alimentado.

É por isso que comem muito quando ficam nervoso. Pela ausência de paz a comida nunca sacia. A ansiedade sempre traz a sensação de não se saciar.

Sim, Pai, nos dê o alimento que precisamos, mas reconhecemos que ele não é o pão físico, a comida. O alimento que precisamos é a paz de espírito, a harmonia e a felicidade eterna.

Participante: vou fazer uma pergunta que foi feita em relação a esse tema quando foi postado na Internet: O ser humano não vive só de pão, mas vive de tudo que Deus diz. Ao usar o termo só, Cristo também inclui o pão material nas necessidades do humano?

Não é pão, alimento, mas as coisas materiais. O ser humanizado precisa das coisas que existem nesse mundo.

Quando estudamos isso falamos do pão como elementos materiais: o ter, o ser, o estar, o fazer. Nada nesse mundo é proibido. Não oriento a fugir das coisas desse mundo como o Diabo foge da cruz. Não é preciso fugir delas: o que não pode é alimentar-se delas.

O que é alimentar-se delas? Achar, por exemplo, que é ótimo ter uma família toda organizada, que você precisa ter uma família assim para poder ser feliz. Foi o que acabemos de dizer na questão caridade: quem vive assim já recebeu o que tinha para receber; a satisfação de ter uma família organizada ou o sofrimento de não ter. Você pode ter uma família organizada e ter a benevolência, mas isso só acontecerá quando a família organizada, que neste caso é o pão, não for aquilo que acha importante, que lhe alimenta.

Agora, me diga uma coisa: como deixar de alimentar-se de família organizada sem que pertença a uma? Está vendo, é preciso o material, pois ele é o instrumento para o cumprimento do acordo.

Você precisa se alimentar das coisas espirituais: da paz, harmonia e da felicidade. Mas, esse alimento só vai lhe trazer sustância, só vai lhe deixar satisfeito, se não exigir que junto com ele venha a coisa material. Se está tudo bem na sua vida, não tem dívida, pode ajudar todo mundo, tem a família organizada, tem casa própria, carro, que trabalho precisará fazer para honrar o acordo? Nenhum.

Participante: posso colocar em minhas palavras para ver se entendi? Hoje em dia tenho um bom salário, um carro novo... Já tenho isto tudo e ainda quero exigir ter paz com a família? É isso que é alimentar-se do pão?

Não. É precisar ter alguma coisa desse mundo para se sentir bem. Poderia ser o contrário, não ter nada disso, ter paz na família e exigir tudo isso para se sentir bem.

“Perdoa as nossas ofensas como também nós perdoamos as pessoas que nos ofenderam” (Mt. 6, 12)

Repararam uma coisa? Existe uma condicionalidade nesse texto. Sendo assim, como é que quer que Deus lhe perdoe se não perdoa ninguém?

“E não deixes que sejamos tentados, mas livra-nos do mal.” (Mt. 6, 13)

Que o Senhor não ponha a tentação na nossa vida. Mas, se puser, vou aceitar.

Que o Senhor me livre do mal, que é o egoísmo. Mas, se vier, vou aceitar.

Participante: “afasta de mim este cálice, mas se não for possível que eu beba até a última gota”

Exatamente.

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Perdão

“Porque, se perdoarem as pessoas que ofenderem vocês, o Pai de vocês, que está no céu, também perdoará vocês. Mas, se não perdoarem essas pessoas, o Pai de vocês também não perdoará as ofensas de vocês.” (Mt. 6, 14 e 15)

O amor ao próximo e a Deus. Como espera receber de Deus, se não faz por onde receber. Lembre-se: Deus dá a cada um segundo as suas obras. É preciso merecer pra receber.

Lembrando que este perdão é interno e se consiste em não ver nem erro no que aconteceu. Não está se falando em ir lá e não penalizar ninguém.

Participante: isso se aplica a vida da gente como se fosse uma árvore cheia de galhos e cada galho uma possibilidade já planejada de vida. Então, se internamente estivermos bem, em paz, iremos por um galho, um caminho. Nele pode ter uma dádiva de Deus esperando por nós. É isso?

Isso.

Participante2: e como pode ser uma dádiva de Deus. Dádiva de Deus não seria a bem-aventurança?

Não. Não se trata de uma dádiva de Deus no sentido material, receber o que se quer.

É o que sempre disse: o ato vai ser sempre aquele que foi acordado antes da encarnação. Só que colocando em prática o que foi pactuado aqui internamente você vai passando pelas situações de uma forma diferente, cada vez com menos dor.

Participante: posso entender que é uma via de mão dupla, ou seja, quando faço ao próximo, automaticamente estou recebendo também? Quando perdoo o próximo, automaticamente estou me livrando de uma relação que não é satisfatória para os dois. Estou rompendo aquilo porque o perdoei e ao mesmo tempo estou me perdoando?

Vamos falar mais fácil?

A via de mão dupla que você fala é uma estrada. Qual o nome dessa estrada que se refere? A estrada onde se perdoa um e é perdoado na volta? Carma, ação e reação.

Você planta e colhe, você faz, tem a reação. Se julga, vai receber julgamento. Mereceu recebe-lo.

Só que esse merecimento não se trata de castigo, de pena. É amor, é amoroso. O que recebe é uma nova possibilidade para perdoar e com isso merecer a bem aventurança. Além disso, é justo, pois você não perdoou antes.

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O jejum

“Quando vocês jejuarem, não façam uma cara triste como fazem os hipócritas, pois eles fazem isso para todos saberem que eles estão jejuando. Eu afirmo a vocês que isto é verdade: eles já receberam a sua recompensa. Mas você, quando jejuar, lave o rosto e penteie o cabelo para os outros não saberem que você está jejuando. E somente o seu Pai, que não pode ser visto, saberá que você está jejuando. E o seu Pai, que vê o que você faz em segredo, lhe dará a recompensa”. (Mt. 6, 16 a 18)

O que era o jejum antigamente? Cristo está usando um rito israelita. O jejum existe em outras religiões, mas aqui se refere a um rito israelita.

Mas o que é um jejum? Jejuar é não comer, não se alimentar, não fazer uso daquilo.

Participante: por opção.

Não é só por opção. Jejuar é não comer.

Você pode jejuar por não ter o que comer ou por não querer comer. Jejuar é passar necessidade. É querer se alimentar e não fazer isso.

Diante disso, posso dizer que no texto é dito: quando estiver passando por necessidade, não faça cara feia. Não demonstre o seu sofrimento.

Sabe aquelas pessoas que dizem: “não estou nada bem, aconteceu isso e aquilo … (em tom de sofrimento).” Esses estão demonstrando todo seu jejum.

No texto Cristo dala em pentear cabelos, lavar o rosto, não tomar banho, jogar cinzas sobre a cabeça, porque essas atitudes faziam parte do ritual israelita Tudo isso era feito para demonstrar que o ser está em jejum. O mestre usa essa tradição para combinar que se quer a bem aventurança, quando você estiver passando por carências, não demonstre. Diz mais: aquele que demonstra, já recebeu dos outros o que tinha para receber. Recebeu o quê? O carinho, a atenção, etc. Esse não vai receber a felicidade.

Participante: mas, quando o jejum é provocado tem o sentido de haver um martírio e uma troca.

Sim.

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Riquezas no céu

“Não ajuntem riquezas aqui na terra, onde as traças e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e roubam. Pelo contrário, ajuntem riquezas no céu, onde as traças e a ferrugem não podem destruí-las, e os ladrões não podem arrombar e roubá-las. Pois onde estiverem as suas riquezas, aí estará o coração de vocês.” (Mt. 6, 19 a 21)

O que é a sua riqueza? Esse é o primeiro ponto que precisamos parar e pensar. O que é riqueza para você? O que é importante. Riquezas são coisas importantes.

O importante é estar bem com sua mulher? É ter uma casa? É ser reconhecido como um bom profissional? É educar seus filhos? Sempre que a resposta a uma dessas questões for sim, aquilo é uma riqueza para você.

Não ajuntem riquezas na Terra, tesouros aqui, por que nesse mundo tudo se altera, tudo muda. Quando o seu tesouro mudar, ou seja, perder o brilho, deixar de ser o que é, sofrerá.

Por isso, para cumprir essa parte do acordo você tem que mudar suas riquezas, mudar o que é importante para você. Ao invés de se preocupar com as coisas desse mundo, deve dar importância às coisas do outro.

O que pertence ao outro mundo? Qual é a única coisa que o Espírito leva quando sai da carne? O amor.

Essa é a resposta para esse trecho do acordo. É preciso que você dê importância ao amar ao invés das coisas desse mundo. Dê mais importância ao amar do que ao ganhar, a ter prazer, a conquistar a fama ou receber elogios. Como esse amor nunca muda nem ninguém vai lhe roubar, nunca se deteriora e você será sempre rico, feliz.

É isto que está sendo dito aí. Tudo que é riqueza, coisa importante, ou bem dessa Terra um dia lhe será roubado ou se deteriorará. O amor que sentir não. Por isso, aquele que busca a bem aventurança acha importante apenas amar, se ocupa em acumular amor.

Participante: que amor é esse?

Amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Quem se ocupa em acumular amor, se ocupa com duas coisas: em amar e ser amado. Mais nada é importante para ele.

Não estou falando do amor humano, mas do amor espiritual.

Participante: o que é amor espiritual?

O amor espiritual existe quando se respeita o direito do outro ser, estar e fazer o que quiser. Essa é, em qualquer situação de vida, para aquele que quer ser bem aventurado a coisa mais importante, aquilo a que se dedica integralmente. Ele só vive para isso; o resto é apêndice.

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A luz do corpo

“Os olhos são como uma luz para o corpo: quando os olhos de vocês são bons, todo o seu corpo fica cheio de luz. Porém, se os seus olhos forem maus, o seu corpo ficará cheio de escuridão. Assim, se a luz que está em você virar escuridão, como será terrível essa escuridão!” (Mt. 6, 22 e 23)

Os olhos são a luz do corpo. O que é luz? É a felicidade, o estado de paz. Você está iluminado quando tem aquela cara de bobo: ‘não faz mal se não passei na prova...’ Isso é ter luz, estar iluminado.

Os seus olhos são a fonte desta luz. O que Cristo quis dizer com isso? Que esta luz tem que vir de fora, tem que vir do que está acontecendo fora, tem que vir do que está fora.

Não adianta só racionalmente colocar luz, dizer que que está tudo bem, tudo em paz, quando o que está vendo não reflete isso. Nesse caso o ‘vendo’ já não diz respeito ao olho, mas ao raciocínio, a mente, a ideia, a percepção. Cristo fala em olho porque naquele tempo Freud não tinha nascido e ninguém sabia sobre mente e estas coisas. Por isso fala que o olho é a fonte de luz.

O importante é saber que não adianta só lutar racionalmente contra o sofrimento. Racionalizar que está em paz, mesmo não tendo passado na prova. É preciso vibrar de forma positiva internamente porque isso aconteceu. Para isso é preciso colocar no ato algo de luz, de bom, e não esperar ‘entrar’ alguma coisa escura (a sensação de perda, por exemplo, para dentro tentar clarear, criar uma justificativa racional de felicidade.

É como o mestre fala: se seu olho reflete negatividade, sofrimento, ou seja, se a percepção é negativa, você vai cair na escuridão. E que escuridão horrível.

Participante: no primeiro momento vem a negatividade, não?

Sim. No primeiro momento vem a sensação negativa. Aí é preciso trabalhar.

O que estou querendo mostrar é que esse trabalho não se caracteriza pela racionalização da coisa. De nada adianta, por exemplo, racionalizar, criar razões positivas, no caso de sua mãe morrer. O que precisa ser feito é chegar conclusão de que morrer é bom. Isso se faz antes do momento e não depois dele.

Participante: sim, mas em algum momento você tem que racionalizar...

Não estou falando em racionalizar naquele momento. Estou falando que no seu processo de meditação diuturno deve pensar sobre a morte e dizer para si mesmo: ‘morrer não é ruim... morrer não é ruim...’ Se não fizer isso, no momento em que se deparar com uma morte não conseguirá manter-se em paz.

Vocês recebem grande quantidade de informação a cada momento. Na hora que, humanamente falando, interessa, agem racionalmente para estancar o fluxo de sofrimento. Isso é humano, não espiritual. Aquele que busca a bem aventurança trabalha o tempo inteiro junto aos preconceitos. Fazendo isso, deixam os conceitos internos prontos para colocar luz nas coisas. Assim, naquela hora que a escuridão penetra, liga a chave.

É preciso entender a necessidade de começar a trabalhar a luz do mundo de uma forma ampla. É preciso agir o tempo inteiro, vinte e quatro horas por dia, para ir desentocando os conceitos que estão enraizados e que causam a escuridão ao invés de esperar o momento que um conceito se apresenta para tentar mudar alcançar a luz.

A felicidade é o resultado de um trabalho de vinte e quatro horas diárias. Trabalhando só no momento que a escuridão aparece, o que existe é apenas uma racionalização de que pode ser manter em paz. Isso não afasta o negativismo que está lhe escurecendo por dentro

Quem assina esse acordo precisa compreender que internamente tem que se mudar: reforma íntima. Mudar-se no sentido de alcançar a consciência de que, por exemplo, morrer não é ruim e que não passar numa prova não é o fim do mundo.

É isso que Cristo está querendo mostrar. Seus olhos tem que captar luz. Eles não podem captar escuridão. Se captarem, ela se implantará dentro de você, mesmo que produza internamente uma luz artificial. Essa luz não vai iluminar

Participante: eu compreendi que não é uma compreensão seletiva, onde em algumas situações você compreende. É uma compreensão profunda. Não é passar um remedinho, mas tirar o bicho que está lá dentro.

Sim, mas esse tirar o bicho tem que ser feito sempre, vendo ou não o bicho. É isto que estou querendo dizer.

Participante: pela força do hábito, pelo vício, mesmo que já tenha até obtido a compreensão geral do processo, na situação, a dor vem.

Se só nesse momento for criar uma racionalização para não sofrer, de nada adiantará. Mesmo que em um determinado momento, pela força de maya, ache que venceu, em algum momento a escuridão será fruto de algo tão íntimo, de alguma coisa muito valorizada individualmente, que irá cair.

No entanto, isso não aconteceu de graça. Só ocorreu porque não trabalhou o conceito referente àquilo que agora causou a escuridão.

Um detalhe. A Bíblia que estamos lendo é um pouco diferente do que vocês leram, não é? E olhe que não estou mudando uma palavra. E ainda estamos só no Sermão do Monte.

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Deus e as riquezas

“Um escravo não pode servir a dois donos ao mesmo tempo, pois vai rejeitar um e preferir o outro; ou será fiel a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e também servir ao dinheiro.” (Mt. 6, 24)

É tudo que estamos conversando...

Nessa passagem Cristo diz claramente que não se serve à vida humana e a Deus ao mesmo temo. Não pode se esperar que a vida onde haja bem aventurança, felicidade plena, seja vivida ao mesmo tempo com sucesso material.

Agora, repare: é servir, não receber. Trata-se de viver para e não ter. Ter pode, o que não pode é viver para, esperar ser, desejar ter. ...

Por isso, a questão não é abandonar o que tem, mas analisar as suas prioridades. Elas devem estar ligas nas coisas celestes e não nas materiais.

“Por isso eu digo a vocês: não se preocupem com a comida e com a bebida que precisam para viver nem com a roupa que precisam para se vestir. Afinal, será que a vida não é mais importante do que a comida? E será que o corpo não é mais importante do que as roupas? Vejam os passarinhos que voam pelo céu: eles não semeiam, não colhem, nem guardam comida em depósitos. No entanto, o Pai de vocês, que está no céu, dá de comer a eles. Será que vocês não valem muito mais do que os passarinhos? E nenhum de vocês pode encompridar a sua vida, por mais que se preocupe com isso.” (Mt. 6, 25 a 27)

Não se preocupem com a comida, com a bebida e nem com a roupa. O que são estas três coisas? Necessidades básicas.

Não se pode se preocupar com nada nessa vida, nem com as chamadas necessidades básicas. Tem espiritualista que me responde o seguinte: ‘se eu não trabalhar, não vou comer.’ Esse é aquele que diz que quer servir a Deus, mas ainda serve à materialidade em troca de necessidades básicas.

Nem as ditas necessidades básicas são necessárias para aquele que quer ter a felicidade. Não estou dizendo que não pode ter, mas sim que elas não podem ser alvo de preocupação, não podem objetivo de vida, não podem ser o alvo principal de busca na vida. É isto que está sendo dito aqui.

‘Deus dá, os passarinhos’. Isso é apenas uma figura para que o ensinamento fique bonitinho. O que o mestre quer transmitir é que quem assinar esse acordo deve saber que precisa servir a Deus. Mais: que quem serve a Deus não pode servir à matéria, nem em troca de suas necessidades básicas.