Renato Mendes

Ausência de eu

Por Renato Mendes há 1 ano

Todas as coisas são interdependentes.

Assim como no exemplo do vagão deste texto, o corpo segue o mesmo princípio, separe os ossos, tecidos, músculos, órgãos e todo o resto e então teremos ossos, tecidos, músculos, órgãos, etc, ainda temos um corpo se assim o chamar, mas não mais na forma concebida de corpo.

Esta questão do corpo gera duas constatações interessantes. Não podemos chamar o corpo de eu. Fazendo uma análise bem simplista, ao cortar as unhas ou os cabelos e eles serem jogados ao lixo, você que estaria sendo jogado ao lixo? Ou seria menos você uma vez que o corpo foi fracionado? Podemos usar este exemplo para qualquer outra parte, inclusive ao cérebro. Eu perguntaria, você é qual dos hemisférios ou parte do cérebro? Há casos de pessoas conscientes e sem partes do cérebro, e como vimos anteriormente o cérebro é composto por células que por sua vez é composto por átomos. Logo, não há nada no corpo que define ser você.

A outra constatação é chamar o corpo de meu. Usando o mesmo exemplo de que você corta as unhas e cabelos e joga no lixo, ou quem sabe doa um órgão, ou amputa um membro, você dirá que perdeu qualquer uma destas partes e elas agora não fazem parte do seu corpo. Mas veja, se você pode perder na verdade nunca foi seu. Assim como existe a percepção do corpo com todos os membros pode haver em outro momento a percepção do corpo sem um dos membros, e você se lembrará deste membro como se um dia fosse seu e já não é mais. Se hoje ele não é, na verdade nunca foi, você que afirma te-lo sido, uma afirmação apenas.

Você percebe a interdependência das partes em uma relação e chama isto de eu ou meu, mas não é.

Figura

Todas as coisas são impermanentes.

Como vimos neste texto todas as coisas são impermanentes, isto inclui corpo, pensamentos, emoções e sentimentos. Tanto é assim que pensamentos vem e vão, emoções aparecem e desaparecem, sentimentos existem para depois não existirem mais. E como todas as coisas, um pensamento que aparentemente insiste em repetir ou se manter na verdade não é o mesmo pensamento, um pensamento nasce e morre neste presente, outro irá nascer e morrer no próximo presente para outro nascer e morrer no outro presente até haver um presente em que não há pensamentos, para em algum presente depois outro pensamento surgir e assim vai, mesmo que os pensamentos pareçam iguais eles não são iguais, nem os mesmos. Raiva, alegria, tristeza ou qualquer outra emoção funciona da mesma forma, o que parece ser uma emoção se prolongando ou repetindo é na verdade uma nova emoção pois novos fatores estão envolvidos a cada presente, e, se agora há raiva, por exemplo, nada impede que no presente seguinte haja tristeza, as emoções são outras, elas não mudaram de raiva para tristeza, simplesmente são outras.

Sendo assim, não podem os pensamentos, emoções ou sentimentos serem ou terem eu, pois o eu surgiria para desaparecer para surgir modificado, e haveria momentos em que eu não existiria ainda que houvesse a consciência de não haver eu.

Figura


Todas as coisas são impermanentes e interdependentes portanto destituídas de eu e, ainda assim, há a consciência de todas elas.