O valor essencial da vida

Mergulhando no sofrimento

Sabe de uma coisa? Todo sofrimento desse mundo está ligado ao eu humano que o espírito vivencia durante a encarnação. Isso porque todo eu tem sempre um querer e quando ele não é atendido, se não há uma meditação sobre o valor essencial da vida, existe o sofrimento.

Quantos sofrem a vida inteira desejando que o mundo seja diferente e não conseguem muda-lo? Sofrem seguidamente, mas não mudam a si mesmos para poderem ter um pouco de paz nesta vida.

Faça uma meditação sobre a vida: imagine quantas pessoas, incluindo você mesmo, e coisas alguém teria que mudar hoje para ser feliz? Acho que seria um trabalho que dificilmente conseguiriam realizar, não é mesmo? Pois bem, estou reduzindo todo esse trabalho para apenas um: a mudança de si mesmo...

Para ser feliz do que você precisa? De ser feliz. Mais nada do que isso. Portanto, precisa apenas que viva feliz os momentos da sua vida e de mais nada.

Participante: o senhor faz parecer tão simples...

Mas, é mesmo. Para se ser feliz é preciso unicamente ser feliz.

Participante: é aceitar tudo com felicidade?

Não, é amar.

Aceitar é dizer que se não tem jeito mesmo é preciso viver o que está acontecendo. Isso é resignação e ainda causa sofrimento. Estou falando de amar tudo que lhe acontece. Você está com dor de cabeça? Resignando-se, continuará a viver a dor com sofrimento; amando-a, não sofrerá por tê-la.

Agora repare: não estou falando de dor física, mas sim do sofrimento de estar sentindo dor. Quem ama a dor de cabeça continua com a dor, mas não sofre por ela existir; quem se resigna a tê-la ou se revolta por que está sentindo dor tem também o sofrimento de estar com dor.

Mas, e a dor? Ela passará? Não sei. Pode ser que passe, pode ser que não passe. Só sei que tê-la não lhe fará mais sofrer.

Agora, para poder se amar a tudo e a todas as coisas é preciso antes que se medite sobre o valor essencial da vida. Por isso, volto a perguntar: porque você nasceu, porque está respirando, porque acordou hoje de manhã?

O valor essencial da vida

Mergulhando nas críticas

Essa é a forma de se viver a questão da elevação espiritual dentro do mundo de hoje: viver com as leis deste mundo sem se subordinar a elas. Essa vivência com certeza levará a sociedade a criticar quem vive liberto, mas como esse ser humanizado conseguiu pela meditação a mudança do valor essencial de sua existência, as críticas não mais levam a se sentir criticado.

A questão de não sentir-se como o mundo diz que você deve se sentir é importante para a questão da elevação espiritual. Responda-me: Jesus foi traído? Diria que sim. Judas vendeu-o por trinta moedas. Mas, será que o mestre sentiu-se traído por ele? Diria que não, já que na própria cena da Santa Ceia o chama de amigo. Sendo assim, se é cristão, quando alguém agir contrariamente aos seus interesses, ao invés de sentir-se traído, chame o instrumento da sua provação de amigo.

Faça isso com todas as coisas desse mundo. Se alguém o critica, não se sinta criticado; se alguém desdenha, não se sinta diminuído. O seu trabalho de meditação não deve ter por finalidade fazer com que os outros ajam da forma que considera certa, mas que você não viva o que eles estão vivendo. Essa é a meditação que leva o ser a aproveitar a encarnação.

Quem busca alcançar a elevação espiritual não medita sobre o que outra pessoa fala dele, mas sim no sentido de aproveitar a oportunidade da encarnação para a elevação espiritual. Ao invés de meditar querendo entender o porquê aquela pessoa lhe acusa, o ser que muda o valor essencial da sua vida medita em como não se deixar levar pela acusação.

Esse, ao invés de responder aos argumentos dos outros, dá a eles o direito de pensar o que quiserem. Por isso, jamais se desarmoniza com o mundo. A paz e a harmonia com o mundo, no entanto, só será conseguida quando o ser humanizado sair da superfície da vida. Na crista da onda está sempre presente o sentir-se caluniado, acusado, contrariado, etc.

Lembro-me que no auge dos problemas de uma pessoa, sempre que conversava com ela dizia o seguinte: ‘só me preocupo com o sofrimento que está vivendo’. Apesar de todos os problemas que aquela pessoa vivenciava, nunca me preocupei com o que estava acontecendo. A única coisa que me ocupava era o fato de sentir-se acusada, traída, caluniada.

Por que isso? Porque a única coisa que importa nesse mundo é a capacidade de manter-se unido a Deus e por isso viver a felicidade que Ele tem prometido aos seus filhos. Quando consegue essa união, o mundo todo do ser se transforma. A mesma pessoa que hoje lhe acusa, amanhã irá lhe lamber. A mesma pessoa que calunia, amanhã irá elogiar.

Pela lei da impermanência, tudo muda nesse mundo. Mas, os momentos em que houve sofrimento, ou seja, onde o ser não aproveitou a oportunidade da encarnação para viver em comunhão com Deus, não retornam. Foram oportunidades perdidas.

É por isso que a minha preocupação nunca está ligada aos acontecimentos deste mundo, mas sempre no aproveitamento ou não da oportunidade que o ser universal está tendo. Por isso, todo meu trabalho é voltado a ensinar a se relacionar com o seu eu humano.

O valor essencial da vida

Mergulhando nas regras societárias

Participante: mas, nós convivemos com o mundo. Vivemos numa sociedade onde cada um tem obrigações e deveres que precisam cumprir. Como podemos colocar em prática o que o senhor diz? Seria muito fácil jogarmos tudo para o ar e viver desse jeito.

Você se engana. Não seria nada fácil fazer o que estou dizendo. Na verdade, o fácil é fazer apenas o que esperam de você. Difícil é ir contra o mundo e fazer o que os outros não querem que faça...

Participante: então, devemos nos isolar do mundo?

Também não estou dizendo isso. Veja bem: tudo o que a sociedade lhe impõe, tudo o que o mundo humano coloca à sua disposição, é prova. Isolando-se, não viveria provas e assim não poderia elevar-se.

O que estou falando é em conviver com o mundo, mantendo-se unido a Deus.

Participante: mas, isso demora...

Claro. Estamos falando de prova e não de um rápido teste. O ser que encarna possui diversas questões que precisa responder, por isso a vida humana possui a duração que tem.

Mas, aproveitando que estamos falando de provas, pergunto: como conviver com o mundo material e realizar suas provações à contento? Para falar disso vou usar como exemplo um acontecimento da vida carnal: ser mãe.

Ser mãe é uma provação para o espírito. O que está em provação neste momento? A consciência com que se vive a maternidade.

Ser mãe é viver uma prova onde se decide como se vive a maternidade: com a consciência de que é um instrumento do Pai para ajudar na encarnação de um filho Dele ou se vive com a ideia de que é a própria genitora e por isso é aquele que comanda a existência do outro.

A partir dessa meditação, ou seja, da descoberta do valor essencial da maternidade, descobre-se que o ser se eleva quando, sem abandonar o papel de provedora, se sente apenas como instrumento para que o Pai dê ao Seu filho aquilo que ele precisa e merece.

Mas, como viver desse jeito numa sociedade que possui normas e regras que ensinam o que é ser mãe e como se agir na vivência desse papel? Simples: vivendo com a consciência de todas as suas regras, sem sentir-se obrigado a subordinar-se a elas. Vou dar um exemplo para ficar claro o que disse.

Numa das regras, a sociedade diz que a genitora deve prover o filho com uma casa confortável e equipada com determinados instrumentos que gerem conforto e proporcionem a oportunidade de avanço material para o filho. Aquele que vive em comunhão com Deus convive com essa regra, mas em vez de se orgulhar de prover desta forma seu filho ou culpar-se por não fazê-lo, diz: ‘eu disponibilizei para o meu filho a casa que ele precisava para o seu trabalho nesta encarnação’.

Digamos, no entanto, que a casa que disponibilizada para ele não é compatível com o meio que vive. Nesse caso, a sociedade cobrará que você não está sendo uma boa mãe, pois não está atendendo toda a necessidade de seu filho. Certo? Não, errado. Na verdade, não é ela que lhe cobra, mas você que se sente cobrada por causa disso.

Por que se sente cobrada? Porque ainda não mudou o valor essencial da sua vida. Se tivesse mudado, quando alguém lhe cobrasse algo que não fez, não se sentiria cobrada, pois por conta dessa mudança, aquela realização não é mais importante para você.

Viu como dá para praticar o que falo? Mas, quando conseguirá isso? Quando, através da meditação, alterar o valor essencial da sua vida. No momento que isso acontecer, não se sentirá mais obrigada a se subordinar às leis da sociedade e poderá viver em paz e harmonizada com o mundo que possui regras e normas.

O valor essencial da vida

Mergulhando nas religiões

Portanto, comece já. E para começar lhe digo: ultrapasse os ensinamentos religiosos que prometem a felicidade fundamentada nas coisas deste mundo e se entregue a Deus. Somente assim conseguirá unir-se ao Pai.

Deixe-me perguntar uma coisa. A religião católica briga com o governo? Acho que sim. Ela critica o governo porque não dá terra para os pobres, porque não provê o sustento nem dá condições dos carentes suprir as suas carências.

Essa religião é apostólica, ou seja, baseia-se nos ensinamentos dos apóstolos, não é mesmo? Mas, na Carta aos Romanos, Paulo diz que as igrejas cristãs devem respeitar os governantes. Afirma que não se deve brigar com aqueles que governam, pois eles foram escolhidos por Deus para dar aos que estão na carne aquilo que precisam e merecem.

Engraçado, não? Uma religião que foi fundada a partir dos ensinamentos dos apóstolos não segue o que um deles ensinou, não é mesmo? Por que isso? Porque está presa em um Deus que supre necessidades materiais e não espirituais.

Eis aí o problema das religiões. Por se ligarem às questões materiais, não conseguem se unir ao Pai. Só aqueles que conseguem extrapolar a matéria podem realizar essa união, pois estarão em consonância com os desígnios do Senhor.

O valor essencial da vida

Mergulhando nos mentores

Participante: esta consciência da potência de Deus existe no instinto, não?

Sim, e é por isso que afirmo que você precisa eliminar todos os conceitos presentes na razão. Quando eliminá-los, poderá viver apenas instintivamente o que, como já vimos, é indicado pelo Espírito da Verdade para aquele que quer alcançar a elevação espiritual.

Aliás, foi assim que todos aqueles que conseguiram a santidade – a vida em plenitude com o Pai – viveram. Eles abandonaram o que queriam e diziam: que seja feita a vossa vontade. Abandonaram a presunção de fazer e disseram: Senhor, guia meus passos.

Quando a questão é unir-se a Deus, sempre oriento a leitura das cartas de Paulo. Apesar delas serem exíguas para a compreensão da visão que esse apóstolo tinha sobre o viver em Deus, podem lhe trazer um pouco do despertar que Paulo conseguiu na estrada de Damasco e depois.

Paulo era um judeu e um dos maiores professores da lei do Sinédrio. Nesse lugar onde se debatia a lei de Deus passada pelos profetas judaicos, era um dos maiores debatedores e gostava muito de mostrar o quanto sabia sobre o assunto. Por causa disso, inclusive, perseguia aqueles que seguiam Cristo.

Um dia, dentro de uma das suas perseguições a cristãos, Paulo, que à época se chamava Saulo, na estrada para Damasco é atingido por um raio e cai do seu cavalo sem poder enxergar mais nada. É levado a uma hospedaria onde um cristão lhe socorre e cura a sua cegueira. Durante o tempo que esteve cego, teve uma compreensão perfeita de tudo o que o mestre nazareno ensinava.

Isso é o que a Bíblia conta. A partir disso, pergunto: qual a primeira coisa que ele fez quando teve a compreensão? Foi para o Sinédrio participar das discussões, só que agora defendendo os ensinamentos de Cristo. Apesar de ser proeminente naquele meio, apesar de ter plena consciência de tudo o que o foi passado pelo Messias, os membros do Sinédrio não aceitaram o que Paulo falava e começaram a persegui-lo. Por causa disso, teve que fugir.

Desiludido porque não tinha conseguido convencer os professores da lei judeus, Paulo, que adorava os debates, foi para a casa de seu pai. Chegando lá, como todo professor da lei, Paulo dedica-se a conversar com seu pai, que também pertencia à classe dos dirigentes do judaísmo de então, sobre os ensinamentos que tinha aprendido. Acontece que o pai dele também não aceita as novas verdades. Mais uma vez Paulo tem que fugir.

Cansado, sentindo-se derrotado, pois adorava discutir e mostrar o quanto sabia, mas as pessoas não mais acreditavam no que tinha a dizer, Paulo adormece a beira de uma estrada. Nesse momento um anjo do senhor lhe aparece em sonho. O novo apóstolo, então, pergunta o que deve fazer. O anjo do senhor lhe diz que deve abandonar tudo e partir sem rumo. Ainda desiludido, pois o que gostava mesmo era de debater os assuntos religiosos, mas não conseguia mais fazer isso, Paulo sai pelo mundo.

Durante quatro anos vaga pelo mundo vivendo do seu tear e meditando sobre tudo que ouviu na estrada de Damasco. Só depois desse tempo é que retorna à condição de apóstolo e assume a transmissão dos ensinamentos de Cristo aos não judeus.

Contei essa história para que você entenda que a meditação como processo para a elevação espiritual não é algo que acontece da noite para o dia, mas que requer muito trabalho. Se até Paulo que, como ele mesmo diz, recebeu os ensinamentos no mais alto dos céus, precisou de quatro anos para realmente alterar o sentido da sua vida, imagine você, que está recebendo os mesmos ensinamentos rodeado por tantas questões materiais que envolvem sua vida. Será preciso muito trabalho para poder transformar o valor essencial da sua vida. No entanto, saiba que trabalhando com afinco poderá penetrar na mesma compreensão que o apóstolo penetrou e com isso conseguirá se unir a Deus, como ele fez.

O valor essencial da vida

Mergulhando em Deus

Participante: quando se ouve tudo o que o senhor falou, não há como escapar da pergunta: o que é Deus?

Um ser, um espírito. O ser mais elevado do universo (Inteligência Suprema) e que por conta da sua ascensão moral está no topo da escala hierárquica. É a Causa Primária de todas as coisas, ou seja, é a origem de tudo que existe. Acreditando em qualquer coisa diferente disso, você ainda está presa às verdades humanas.

Quem consegue compreender Deus sabe que no universo só existe uma realidade: Deus e sua ação. Quem não consegue, ainda vive com a ideia de um eu afastado do Senhor.

Deixe-me dizer uma coisa. Na Bíblia está escrito que o espírito foi criado à imagem e semelhança de Deus. Sendo assim, quem é você? Deus. Mas, não você da forma como se vê hoje no universo, um ser humano, mas da forma que é no mundo espiritual.

Pronto, aí está a sua resposta: Deus é a Inteligência Suprema e a Causa Primária de todas as coisas, por isso é você. Não há necessidade de se discutir mais nada. Deus não é uma condensação de energias, não é um raio nem um velho de barbas longas? Não, Ele não é nada disso. Este é o argumento que você deve usar na sua meditação sobre a sua existência.

Apenas para encerrar esta questão de quem é Deus, vou fazer uma comparação que não tem nada a ver com a realidade, mas apenas para ajudar a compreender o Pai. Imagine um super computador: este é Deus.

É claro que Ele não é um computador, mas a figura lhe ajuda a entender o Senhor. Ele é uma Inteligência que é capaz de gerar e governar todas as ações do universo de tal forma que cada um sempre receba aquilo que precisa e merece. É quando se toma consciência dessa potência do Pai que o ser perde a presunção de saber o que é melhor para si e entrega-se a Ele deixando-O comandar seu destino.

O valor essencial da vida

Mergulhando na adoração a Deus

No Avadhut Gita existe uma frase que diz assim: se não existe o contemplador nem o Contemplado, para que haver contemplação? Se como ensina Cristo, você e Deus são UM, porque adorá-Lo? Ao invés de adorá-Lo, deveriam se concentrar em integrar-se a Ele, em ser UM com Ele. Isso jamais conseguirão enquanto estiverem afastados Dele adorando-O.

Participante: mas, o mandamento não é amá-Lo acima de todas as coisas?

Sim, é, mas esse mandamento não é realização, mas caminho. Vou explicar isso...

Por que o Pai pede que você O ame acima de tudo? Será que é porque Ele gosta de ser amado, de ser adorado? Não. Ele enviou esse ensinamento através de Cristo porque sabe que é o único caminho através do qual o ser pode se integrar a Ele.

A fé, o amor a Deus acima de todas as coisas, liberta do eu e o faz viver o Todo espiritual junto com Deus, integrado a Ele. Já a adoração o faz separar-se do Todo, lhe leva a se ver como algo separado do Todo.

Portanto, é preciso amar a Deus sobre todas as coisas para que possa amar ao próximo como a si mesmo. Isso é algo que vocês nunca entenderam.

Cristo fez cura num sábado. Os professores da lei, por conta do ensinamento do sabbath – ensinamento judaico que manda se guardar o sétimo dia para o Senhor – criticaram essa atitude do mestre. Em resposta Cristo afirmou: vocês não entenderam quando nas Sagradas Escrituras o Pai afirma que quer que sejam bondosos ao invés de queimarem incensos a Ele.

Deus não quer que vocês O adore, mas sim que sejam bondosos. Acontece que essa bondade só é conseguida quando se amar a Ele acima de todas as coisas. Portanto, o amor ao Pai acima de tudo não é fim, mas caminho para a realização.

Participante: caminho para se entregar a Ele?

Caminho para se entregar ao universo.

Na hora que entregar-se ao Todo universal, do qual Deus faz parte, poderá ser bondoso com o próximo. Fará isso porque saberá que o outro também é um pedacinho desse quebra cabeça que vocês chamam de universo e não uma peça que tem que ser atacada para não roubar o seu lugar.

Isso que estamos afirmando agora tem coerência com tudo o que estamos falando deste o início de nossas conversas. Mais: tem tudo a ver com toda literatura espiritual. Leia tudo o que foi trazido pelos seres espirituais e sempre encontrará uma exaltação para que se integre ao Todo, para ame a tudo e a todos.

Participante: se eu vejo Deus acima de mim, acho que fica fácil aceitar os seus desígnios e com isso me integrar a Ele.

Na verdade, quando você se integra a Deus passa a compreender o universo.

Participante: de que forma posso compreender o universo?

Responda-me: você escreveu no papel agora?

Participante: sim...

Com sua resposta só me mostrou que não compreendeu o Todo universal. Quando, mesmo vendo Deus acima de você, se integrar ao universo verá que não escreveu nada: o universo naquele momento foi escrever. Quem se integra ao universo sabe que o Todo existe como fruto da ação de Deus e que por isso ninguém faz nada: as coisas acontecem.

Com relação ao Pai estar acima de você, isso não tem problema, pois no universo realmente existe uma escala hierárquica. Acontece que essa escala, diferente da humana, não é formada por indicações, mas por merecimento. Quem está acima na escala hierárquica espiritual é porque tem ascensão moral sobre quem está abaixo. Esse é o caso de Deus: Ele está moralmente acima de você, pois é o ser mais universalizado que existe. Portanto, pensar que está acima de você não é problema.

Sendo assim, quando você se integra ao Todo age dentro do seu nível hierárquico, mas deixa que Ele comande todos os acontecimentos que acontecem. Assim, ajuda-O na obra geral sem tomar para si a posição de agente dos acontecimentos.

Para você que vive desse jeito, o amor a Deus não será uma lei que se sentirá obrigado a seguir, mas algo com o qual agirá naturalmente, espontaneamente. Por isso lhe digo que enquanto quiser amar a Deus, não conseguirá. Só poderá fazer isso quando entender o universo e conviver com a realidade.

Sim, estou falando da realidade. A cada momento no universo existem milhares de espíritos dizendo Senhor, fazei de mim instrumento de vossa vontade, enquanto milhares de outros que habitam este planeta estão dizendo: Senhor, fazei a minha vontade.

O valor essencial da vida

Mergulhando na oração

Participante: e a oração pedindo alguma coisa ajuda?

Não é isso que Cristo ensinou na Bíblia. Eu não sei como os cristãos ensinam a orar e rezam pedindo. Na Bíblia Cristo disse que não devemos pedir nada a Deus, pois Ele sabe melhor do que nós o que é necessário.

Quando você reza pedindo algo, na verdade está querendo que o Pai lhe dê o que quer. Mas, Ele sabe do que precisa, você não. Você não tem condições de saber isso, pois como ensina o Espírito da Verdade quando ligado a uma mente humana o espírito anseia coisas diferentes daquelas que desejava antes da encarnação.

Sobre a questão de orar, posso lhe dizer que os espíritos elevados rezam a cada segundo assim: ‘Senhor, fazei de mim instrumento de Vossa vontade’. O ser humano reza assim: ‘Senhor, seja um instrumento da minha vontade. Eu não quero que isso aconteça, portanto peço que não faça ocorrer’.

Pedir, portanto, não é uma atitude condizente com quem busca um relacionamento com Deus, mas há outra coisa que quem busca se relacionar com o Pai também não deve fazer quando se ora: agradecer. Se Deus dá segundo a obra de cada um, o que há para se agradecer a Ele? Se tudo o que recebe é o que mereceu receber, vai agradecer o que?

O valor essencial da vida

Mergulhando no que Deus dá

Participante: na verdade é difícil fazer o que o senhor está falando, já que o pensamento surge espontaneamente. Por exemplo, o medo. Quando vemos, o pensamento que expressa um medo surge. Como trabalhar isso?

Vamos realizar juntos este trabalho?

Quando lhe vem o pensamento de estar com medo medite sobre ele. A primeira coisa para realizar essa meditação é descobrir o que está lhe causando o medo? Para poder exemplificar o trabalho usarei o medo que as pessoas têm da velocidade com que o carro está andando.

O carro está correndo e isso lhe dá medo. Por quê?

Participante: porque pode acontecer um acidente.

Esse raciocínio faz parte da lógica humana. Ele demonstra que acredita que nasceu um dia de um ventre humano, pois só quem sabe que nasceu acredita que imprevistos podem acontecer.

Agora, se souber que era antes de existir, que é um espírito vivendo uma aventura humana, pergunto: quando acontecerá um acidente na vida de alguém? Quando Deus quiser. Por isso, se meditar dessa forma descobrirá que o seu medo, na verdade, não é da velocidade, mas sim de Deus: você tem medo que o Pai lhe dê algo que seja mal.

Participante: concordo com o senhor. Sabemos que Deus é Amor e que nos ama, mas ficamos preocupados com o futuro. Dá para se desligar disso e não sentir medo do amor do Pai por nós?

Dá para fazer sim. Como? Trabalhando para isso.

Saiba de uma coisa: a vivência sem sofrimento não cai do céu. Essa vivência é o resultado de um trabalho fundamentado na modificação do valor essencial com que se vive a vida. É por isso que sempre digo que ninguém nunca conseguirá acabar com o sofrimento sozinho. Na verdade, Deus dará o fim do sofrimento como resultado do trabalho de meditação da vida para viver os acontecimentos a partir de uma motivação espiritual.

Deus não escolhe os capacitados, capacita os escolhidos. Se escolhendo para Deus, ou seja, tornando sua vivência com Deus na essência da sua vida, Ele lhe dará o resultado de sua meditação. Se transformar a meditação em fundamento para a vida, ou seja, quando vier o medo buscar conceitos que estão gerando-o e afastá-los colocando na consciência os conceitos que exprimam a fé em Deus, não haverá medo.

Isso, no entanto, não acontece da noite para o dia. É preciso muito trabalho para alcançar este ponto. É preciso galgar degrau a degrau a libertação do mundo humano. Não haverá subida alguma sem o trabalho para a evolução.

É por isso que Cristo ensina que Deus dá a cada um segundo suas obras. Se você trabalhar no sentido de unir-se a Ele, Deus não lhe dará o medo; mas, se trabalhar no sentido humano, ou seja, der asas à imaginação humana, lhe dará muito medo.

Não lhe dará, no entanto, esse sofrimento como castigo, mas sim para chamar a sua atenção para a presença Dele. Ele está dizendo: ‘Eu estou aqui em cima, olha para Mim e não para o que está à sua frente’. É para isso que faz o carro correr.

É preciso lembrar-se do Pai sempre que se acorda, porque é Ele que o desperta e não o relógio. Faz isso para que você tenha um dia inteiro de oportunidades para aproveitar a encarnação e assim alcançar a elevação e não para que satisfaça seus anseios humanos.

Nas linhas orientais se diz que a meditação desliga desse mundo. Na verdade, ela lhe mostra o caminho onde trabalhar para se desligar dos conceitos, desse mundo. Ela não desliga, mas serve de instrumento para poder se encontrar o botão que pode desligar o espírito dos conceitos humanos.

Participante: conheci uma pessoa que falava exatamente isso. Ela dizia que devemos viver cada dia de uma vez, pois não sabemos o que o dia de amanhã guarda.

Eu diria mais: deve viver cada segundo de uma vez. Um dia é um espaço muito grande e você pode se perder.

Viva esse segundo de agora aqui, prestando atenção no aqui com o que chamam de mente e alma e conseguirá. Já se estiver de manhã pensando em todo dia de hoje, dificilmente conseguirá.

A meditação, portanto, é um trabalho passo a passo na busca de Deus através da compreensão do universo além dos conceitos humanos, que, aliás, é o que é retirado para se alcançar a compreensão universal. Toda vez que você raciocina forma um conceito; sempre que vai além dele através da meditação, além de apagar aquela verdade, não formará novo conceito. Isso porque para meditar usa-se a verdade do universo (Deus e sua ação) e isso jamais poderá ser alterado.

O valor essencial da vida

Mergulhando no despertar

Participante: mas, não é assim que vivemos.

Pois é, vocês não se acostumaram a mergulhar nos acontecimentos da vida e se deixam levar apenas pela corrente da superfície. Por isso comecei nossa conversa hoje perguntando: por que você está vivo? Mergulhe nesta questão para poder mudar totalmente a sua forma de viver os acontecimentos do mundo.

Somente quando mergulha na questão da sua origem pode mudar o valor essencial da vida. Se não mudá-la, não conseguirá alterar nada na sua existência, pois permanecerá sempre preso à mesma lógica.

Sem meditar sobre sua origem, as quatro âncoras continuarão fazendo parte de sua lógica e assim sua intenção na vida será satisfazer-se. Por isso, sempre que acontecer algo que não deseje, certamente sofrerá. Agora, se compreende que era antes de nascer, sua intenção ao viver muda e com isso as quatro âncoras não mais lhe afeta, Com isso não mais sofrerá quando o que não quer que aconteça ocorra.

Mudando através da meditação a sua origem se lembrará que Cristo ensinou que não se serve a dois senhores ao mesmo tempo. Por isso, poderá se libertar do serviço à humanidade – realizar o que as quatro âncoras exigem que aconteçam – e viver na plenitude a sua espiritualidade: o amor e o serviço a Deus e ao próximo. Não meditando sobre seu início, continuará achando que nasceu em um determinado dia em um hospital. Com isso continuará ligado à lógica humana e por isso irá querer sempre viver o que deseja. Com esse desejo latente, sofrerá quando o que não quer aconteça.

Esta lógica não pode ser espiritual, pois se fosse Cristo não deixaria os soldados romanos levarem-no para o cadafalso. Sim, o mestre nazareno não se entregou placidamente à crucificação porque era bonzinho, mas sim por conta de uma meditação sobre a sua existência. Isso fica facilmente compreendido quando vemos sua fala logo depois da última ceia: “sinto agora uma aflição, mas o que vou dizer? Pai afasta de mim este cálice? Mas, eu nasci para isso. Pai glorifica seu nome em mim”.

A partir desse ensinamento de Cristo, afirmo que a primeira meditação do dia para aquele que já alcançou a consciência de que existia antes de existir deve ser: ‘estou acordando para viver o que vai acontecer e não para viver aquilo que quero viver. Durante esta vivência, tenho a opção de sofrer ou não’.

Acordando e realizando essa meditação, você se prepara para viver todos os momentos daquele dia sem exigir que o mundo atenda seus anseios e sem sofrer pelo resultado do que lhe aconteça. Essa é a única opção que você tem durante um dia de vida, pois o que vai lhe acontecer já foi programado de tal forma que contenha tudo o que necessita para a sua elevação espiritual.