Virtude e vício
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Virtude e vício

Estudo do subcapítulo Virtude e vício de O Livro dos Espíritos 

Virtude e vício

Virtude

“893. Qual a mais meritória de todas as virtudes? ‘Toda virtude tem seu mérito próprio, porque todas indicam progresso na senda do bem. Há virtudes sempre que há resistência voluntária ao arrasta- mento dos maus pendores. A sublimidade da virtude, porém, está no sacrifício do interesse pessoal, pelo bem do próximo, sem pensamento oculto. A mais meritória é a que assenta na mais desinteressada caridade”.

Virtudes existem muitas, mas qualquer uma delas só se torna sublime quando praticada sem individualismo, sem que o espírito se sujeite às verdades do ego.

Qualquer ato será virtuoso quando o espírito pensar (buscar satisfazer) no próximo antes dele mesmo. O virtuosismo de qualquer ato é alcançado quando o ser espiritual o vivencia com a intenção de levar a felicidade ao próximo, mesmo em detrimento de suas vontades e desejos, e permanece feliz e em paz mesmo assim.

Tal motivação é a sublimação das virtudes porque espelha o mandamento máximo que Cristo deixou: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Quem ama mais a si (é individualista), cobra do seu irmão mudanças de atitudes e conceitos. Quem vive com a intenção de servir ao próximo está sempre vigilante para não deixar seus padrões de atitudes e conceitos servirem como códigos para julgá-lo.

Aquele que se preocupa com a sua satisfação individual exige que o próximo respeite suas paixões e desejos, quando, como já vimos, no respeito ao próximo está a verdadeira caridade. Sendo assim, quem busca vivenciar sublimemente esta encarnação, está sempre preocupado em não deixar seus desejos interferirem no respeito aos do próximo.

Quem sublima as virtudes desta vida não busca nada para si. Assim sendo, aquele que grita ‘Deus esqueceu de mim’ quando algo não acontece como queria, não se lembrou da maior virtude: o amor ao próximo. Se tivesse lembrado, ficaria feliz, pois quando ele não ganha (é satisfeito) foi porque Deus se lembrou do outro.

Quem clama aos céus por si é uma pessoa interesseira, alguém que busca para si mesmo acima de qualquer outro. Este espírito humanizado se esquece que encarnou (nasceu) para servir o próximo amando-o incondicionalmente, como ensinou Paulo.

Portanto, a libertação da necessidade de que as paixões e desejos do ser humanizado sejam contemplados prioritariamente nos acontecimentos da vida é a atividade espiritual mais importante que um ser encarnado pode executar, pois ela sublima qualquer existência. Não é à toa que ela foi objeto de ensinamentos de todos os mestres.

Neste capítulo, ainda falaremos muito sobre a doação ao próximo: a sublimação de qualquer virtude.

Virtude e vício

É preciso trabalhar

“894. Há pessoas que fazem o bem espontaneamente, sem que precisem vencer quaisquer sentimentos que lhes sejam opostos. Terão tanto mérito, quanto as que se veem na contingência de lutar contra a natureza que lhes é própria e a vencem? ‘Só não têm que lutar aqueles em quem já há progresso realizado. Esses lutaram outrora e triunfaram. Por isso é que os bons sentimentos nenhum esforço lhes custam e suas ações lhes parecem simplíssimas. O bem se lhes tornou um hábito. Devidas lhes são as honras que se costuma tributar a velhos guerreiros que conquistaram seus altos postos’.

‘Como ainda estais longe da perfeição, tais exemplos vos espantam pelo contraste com o que tendes à vista e tanto mais os admirais, quanto mais raros são. Ficai sabendo, porém, que, nos mundos mais adiantados do que o vosso, constitui a regra o que entre vós representa a exceção. Em todos os pontos desses mundos, o sentimento do bem é espontâneo, porque somente bons Espíritos os habitam. Lá, uma só intenção maligna seria monstruosa exceção. O mesmo se dará na Terra, quando a humanidade se houver transformado, quando compreender e praticar a caridade na sua verdadeira acepção”.

Não espere que de um dia para o outro conseguirá andar na retidão que Cristo ensina. Também não espere que a retidão caia do céu, ou seja, ocorra sem que você olvide esforços para tanto. Saiba que no Universo, tudo é conseguido com transpiração.

Qualquer coisa que o ser universal receba é conseguida através do esforço individual, ou seja, tudo é fruto de um trabalho. E isso não vale apenas para a vida carnal, mas pela eternidade universal.

Aquele que acredita que, ao morrer, descansará, não entendeu nada do Universo. A existência eterna do espírito é trabalho, trabalho e mais trabalho, pois, só trabalhando se conquista alguma coisa.

Deus não dá nada de graça a ninguém. Como Cristo ensinou, o Pai dá a cada um segundo as suas obras, ou seja, segundo os seus trabalhos. Se você fica sentado esperando que Deus lhe sirva, morre de fome. Se não se levantar e trabalhar para ter o alimento, nada receberá.

Participante: tendo em vista os últimos ensinamentos (que Deus faz os atos acontecerem e dá o pensamento aos seres humanizados) em que se consiste o trabalho que você falou?

Qual o objetivo da encarnação? Aproximar-se de Deus.

Participante: provar o que aprendemos no mundo espiritual...

...e com isso aproximar-se de Deus.

Sendo assim, qual o seu trabalho durante a encarnação? Provar o que aprendeu no mundo espiritual para aproximar-se de Deus. Isto que você precisa trabalhar durante a encarnação.

Não estou falando de trabalho material (limpar a casa, arrumar as coisas, fazer a caridade material), mas executar o trabalho para o qual nasceu: provar o que aprendeu no mundo espiritual para assim aproximar-se de Deus. Ou seja, exercer benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão para as ofensas, como ensinou o Espírito da Verdade (pergunta 886).

A vida (encarnação) foi criada como uma oportunidade para que o espírito trabalhe a benevolência, a indulgência e o perdão e, assim, aproximar-se de Deus. Estes elementos, no entanto, não cairão do céu, ou seja, não serão vivenciados pelo espírito a não ser que ele execute os trabalhos recomendados pelos mestres.

E o que ensinaram os mestres?

O espírito da Verdade disse que o ser universal deve suportar as vicissitudes da encarnação sem ranger de dentes. Buda ensinou que o espírito encarnado deve libertar-se do apego às paixões e desejos aos frutos dos cinco agregados. Para isso é preciso vivenciar- se a existência corporal à partir das Cinco Nobres Verdades.

Krishna diz que o verdadeiro sábio é aquele que se liberta de gozar a ação do ego porque pratica o sacrifício de suas intenções ao Senhor Absoluto. Cristo nos ensinou que devemos amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos e, como vimos hoje, para isso é praticar a sublimação de todas as virtudes: servir ao próximo em detrimento de suas paixões e desejos.

Portanto, é isso que você precisa fazer durante a encarnação. Estes são os trabalhos que devem executar aqueles que buscam viver para Deus.

Participante: como é o trabalhar para aproximar-se de Deus?

O que é Deus? Já definimos em outros trabalhos: nada.

Participante: é algo ainda não conhecido por nós humanos.

Exato. O Senhor Supremo do Universo é alguma coisa, mas nada que possa ser compreendido pelo espírito quando ligado ao ego humano, como aliás ensinou o Espírito da Verdade no início de O Livro dos Espíritos.

Desta forma, o trabalho para se chegar a Deus é impossível de ser realizado pelo ser encarnado. Isto porque esse ser não sabe quem é Deus e nem consegue compreender o caminho para chegar até Ele.

Se o fato de estar ligado a um ego (humanizado) não lhe permite compreender o caminho para chegar ao Senhor do Universo, trabalhe, então, para não ser humano. Ou seja, lute contra toda racionalidade que seu ego diz ser real.

Esta é a realização de um ser universal humanizado: abandonar a humanidade que adquiriu ao fundir-se à personalidade gerada por um ego. Portanto, este é o trabalho que deve ser executado durante a encarnação.

Como já disse anteriormente, a vida carnal bem aproveitada pelo ser espiritual é aquela que não é feita de vida, mas de negação de vida. Portanto, aquele que quer elevar-se precisa trabalhar para negar a materialidade da sua vida e assim, automaticamente, chegar em Deus, sem especificamente caminhar para Ele.

Por isso afirmo que o trabalho do espírito nessa vida é o caminhar para o nada através da libertação de tudo que lhe é real hoje.

Participante: você pode exemplificar melhor este caminhar para o nada?

Você quer chegar a Deus e imagina que isso se faz através da pratica da caridade. Aí está um caminho que espera seguir para atingir a elevação espiritual. Portanto, nomeia o dar um prato de comida a alguém como trabalho que tem que realizar durante a encarnação.

Mas, como vimos, a caridade está na benevolência, na indulgência e no perdão. O caminho não é dar um prato de comida, mas ter esta postura sentimental com relação a quem passa e a quem faz os outros passarem fome.

Como também já vimos, para se conseguir ser benevolente, indulgente e praticar o verdadeiro perdão o espírito encarnado precisa antes libertar-se de suas verdades e conceitos que servem como código para julgar os outros.

Sendo assim, o verdadeiro trabalho é libertar-se do que acredita, sem acreditar em mais nada. Mas, isso só será conseguido quando você deixar de trabalhar com a intenção de dar um prato de comida.

Para chegar a Deus o ser humanizado precisa se libertar das convicções de que deve realizar determinadas coisas, pois elas se tornam normas e padrões que servirão para julgar o próximo.

Para chegar a Deus o ser humanizado precisa se libertar das religiões, das regras religiosas que determinam o ‘certo’ e o ‘errado’, pois elas não deixam o ser chegar a Deus, porque o prende na intencionalidade.

Agora, isto tudo deve ser realizado sem compreensão alguma, sem criar nenhuma razão lógica. Se o ser humanizado quiser realizar tal libertação de uma forma racional (por caminhos conhecidos) jamais conseguirá. Isto porque tudo que lhe é compreensível através da razão é fruto do ego e, portanto, ilusão.

Portanto, a negação de qualquer coisa compreensível através do raciocínio é o caminhar para Deus porque O Senhor Supremo é ‘nada’ que você possa conhecer. Qualquer elemento que defina o Senhor Supremo na verdade é o ego que está criando um deus.

Virtude e vício

Interesse individual

“895. Postos de lado os defeitos e os vícios acerca dos quais ninguém se pode equivocar, qual o sinal mais característico da imperfeição? O interesse pessoal. Frequentemente, as qualidades morais são como, num objeto de cobre, a douradura que não resiste à pedra de toque. Pode um homem possuir qualidades reais, que levem o mundo a considerá-lo homem de bem. Mas, essas qualidades, conquanto as- sinalem um progresso, nem sempre suportam certas provas e às vezes basta que se fira a corda do interesse pessoal para que o fundo fique a descoberto. O verdadeiro desinteresse é coisa ainda tão rara na Terra que, quando se patenteia, todos o admiram como se fora um fenômeno’.

O apego às coisas materiais constitui sinal notório de inferioridade, porque, quanto mais se aferrar aos bens deste mundo, tanto menos compreende o homem o seu destino. Pelo desinteresse, ao contrário, demonstra que encara de um ponto mais elevado o futuro”.

Quem acompanha estas conversas há algum tempo já deve ter me ouvido falar do tema desta resposta: o interesse pessoal. Há muito tempo estamos comentando que o interesse individual anula qualquer boa ação.

Aquele que faz a caridade material porque quer fazer, gosta de fazer, se sente bem fazendo, pode até ajudar o próximo, mas ele mesmo não retira daquele ato nada de lição que possa auxiliá-lo no trabalho da elevação espiritual. Isso porque, como diz o Espírito da Verdade, as aparentes qualidades são superficiais e não suportam certas provas. Quando, no fundo, o interesse do espírito humanizado é se locupletar (satisfazer sua vontade e desejo) com aquilo que está acontecendo a aparência caridosa não resiste à primeira contrariedade.

Por exemplo: quem gosta de dar comida (alimento material) para os necessitados. Quem acha que isso é certo e deve ser feito, quando vê alguém carente que não esteja sendo atendido xinga e crucifica a humanidade e o governo.

Este espírito diz que está querendo servir ao próximo, mas na verdade não entende que está apenas servindo aos seus padrões de certo e errado (paixões) que geram os desejos. Diz-se seguidor de Cristo por praticar a caridade material, mas isso é irreal porque o verdadeiro cristão ‘oferece a outra face’ ao invés de criticar e acusar (reagir).

Bem a propósito a mediunidade de Chico Xavier nos trouxe esta linda mensagem de Emmanuel:

Conta-se que após Jesus haver lançado a parábola do Bom Samaritano, entraram os apóstolos no exame da conduta dos personagens da narrativa. E porque traçassem fulminantes reprovações, em torno de alguns deles, o Cristo prosseguiu no ensinamento para lá do contato público:

Em verdade, - acentuou o Mestre, - nos referido ao próximo, até às indagações do doutor da Lei a frente do povo, a lição de misericórdia tem raízes profundas. Quem passasse irradiando amor na estrada, onde o viajante generoso testemunhou a solidariedade, encontraria mais amplos motivos para compreender e auxiliar.

Além do homem ferido e arrojado ao pó, claramente necessitado de socorro, teria cuidado de apiedar-se do sacerdote e do levita, mergulhados na obsessão do egoísmo e carentes de compaixão; simpatizar-se- ia com o hoteleiro, endereçando-lhe pensamentos de bondade que o sustentassem no exercício da profissão; compadecer-se-ia dos malfeitores, orando por eles, a fim de que se refizessem, perante as leis da vida, e, tanto quanto possível ampararia a vítima dos ladrões, estendendo igualmente mãos operosas e amigas ao samaritano da caridade, para que se lhe não esmorecessem as energias as tarefas do bem.

E, diante dos companheiros surpreendidos, o Mestre rematou:

- Para Deus, todos somos filhos abençoados e eternos, mas enquanto a misericórdia não se nos fixar nos domínios do coração, em verdade, não teremos atingido o caminho da paz e do reino do amor.

A caridade não consiste apenas em atender aqueles que aparentemente estão necessitados, mas em sermos benevolentes, indulgentes e praticarmos o perdão a todos, como já vimos (pergunta 886), mesmo aqueles que aparentemente firam o amor. Mas, para aquele que vive a partir de suas convicções individuais e condiciona o seu amor ao próximo à realização de suas verdades e desejos, isso é impossível.

Por quê? Porque esse ser humanizado tem um interesse pessoal, uma vontade e esse interesse sobrepõem-se a qualquer caridade.

A obrigatoriedade da satisfação sempre fala mais alto do que a benevolência e por isso acontece a crítica (desamor); exige mudanças nos paradigmas dos outros e, por isso, não consegue ser indulgente; jamais perdoa porque está sempre cobrando justiça.

É por esse motivo que venho afirmando há algum tempo que, mesmo quando o ato aparentemente é sublime, o interesse pessoal com qual se participa da ação anula a sublimidade das intenções.

Para aquele que busca a elevação espiritual o segredo da prática da vida dentro do ensinado pelos mestres está no que o Espírito da Verdade nos ensina na resposta à questão 895 que acabamos de ver: o desinteresse pela coisa material. Aliás, junto com o amor universal (incondicional), a libertação da intencionalidade (desapego ao mundo material) é voz corrente no ensinamento de todos os mestres.

Mas, apesar disso, os seres humanizados cada vez mais se apegam àquilo que eles acham que era certo, amoroso e piedoso estar acontecendo. Para esses, se existe alguém passando fome, isso é o absurdo dos absurdos.

Está certo, existem pessoas passando fome no mundo, e daí? Se eu tenho dou se não tenho, não dou. Não preciso sofrer pela minha incapacidade’ de ajudar. E, para ser realmente caridoso, estendo a benevolência, a indulgência e o perdão àqueles que podem e nada fazem para alterar esta situação e, por isso, não acuso ninguém de nada. Se não posso socorrer quem, na minha visão, precisa ser socorrido, não me sinto arrasado, nem crucifico quem não socorre.

Aliás, isso não é real apenas no mundo carnal, mas em todo Universo e a literatura espírita está aí para comprovar.

Os espíritos chamados socorristas que atendem os irmãos no umbral não socorrem a todos, mas apenas àqueles que lhe são indicados atender e nem por isso sofrem ou criticam Deus por não deixar socorrê-los. A literatura não mostrou jamais André Luiz ou qualquer outro irmão espiritual em atividade de amparo no mundo carnal criticando ou acusando o agente causador da situação que levou àquele que está sendo atendido ao sofrimento.

Mas quem decide qual a hora que alguém deve ser socorrido? Deus, o Senhor Supremo do Universo, a Causa Primária de todas as coisas. E o que o leva a decidir pelo socorro? Como Cristo ensinou, a fé é que cura e para isso não há nem necessidade de agentes.

Sendo assim, para que sofrer pelo que o outro está passando? Na verdade o ser humanizado não está sofrendo pelo que o outro está passando, mas sim porque o seu interesse pessoal, a sua vontade individual foi ferida, porque seus desejos não foram atendidos. Sofre por si e não pelo próximo.

Esse sofrimento, então se fundamenta no egoísmo e não no amor pelo próximo. É por isso que a libertação das verdades e desejos existentes no ego humanizado e que criam a intencionalidade do ser humanizado leva à elevação espiritual.

O desinteresse pelos acontecimentos da vida, ou melhor, o não atendimento ao interesse suscitado pelo ego pelas coisas da vida, é um trabalho de aproximação de Deus e precisa ser executado por qualquer um que pretenda abandonar o círculo de reencarnações.

Quem não o executa, ou seja, interessa-se pela vida, é apegado a estar encarnado e, por isso, não se liberta do sansara. Aliás, como já afirmei em trabalhos anteriores, a maioria dos espíritos não quer libertar-se da roda de encarnações porque ‘gosta’ de estar encarnado.

E é por isso que o Espírito da Verdade afirma neste texto: ‘O apego às coisas materiais constitui sinal notório de inferioridade, porque, quanto mais se aferrar aos bens deste mundo, tanto menos compreende o homem o seu destino. Pelo desinteresse, ao contrário, demonstra que encara de um ponto mais elevado o futuro’.

Só consegue compreender o seu ‘destino’ (a vida espiritual na erraticidade) aquele que se liberta do desejo de ‘gozar’ a vida carnal. Enquanto o espírito fixar-se no ponto de vista criado pelo ego (humanismo) como o ‘certo’ ou ‘errado’, estará aprisionado à roda de encarnações.

Por isso disse anteriormente: você precisa libertar-se da sua humanidade e, a humanização da qual o espírito precisa se libertar são suas paixões e desejos criados pelo ego, ou, ‘poluição adventícia’, como chamou Buda Gautama.

Quem se apega às paixões e desejos, mesmo que externamente leve uma vida pia, não realiza nada no sentido da sua elevação. Isso porque, mesmo que sua existência seja pontilhada de atos considerados amorosos, não serviu ao próximo, mas se serviu do próximo para se satisfazer (realizar o que achava ‘certo’ e assim ter prazer).

Fica, então, aqui o alerta: não se preocupem com a vida. Não se preocupem com os acontecimentos da vida ou com o que está acontecendo com as outras ‘pessoas’.

NOTA: O ensinamento é não se preocupar. Isso não quer dizer que nada deve ser feito pelo próximo. Como dito anteriormente se for possível faça, mas se não for, não carregue a culpa ou a preocupação que algo deve ser feito.

Preocupe-se consigo mesmo. Preocupe-se em libertar-se de todo fruto do seu ego (as paixões e desejos que são mayas), porque se você não houver anulado a ação desses frutos, nada terá realizado no sentido da elevação espiritual: ensinamento de Krishna.

Isso é espiritualismo: priorizar o bem espiritual (a elevação espiritual) em detrimento ao bem material (ter a satisfação de ver os desejos individuais atendidos).

Isso é ecumenismo: fundir o ensinamento dos mestres mostrando que todos ensinaram a mesma coisa.

Isso é universalismo: libertar-se das compreensões dualistas que cada um tem sobre as coisas sabendo que elas não podem existir pois o Universo, e tudo que nele ocorre, é uno.

Participante: gostaria que você, se possível, exemplificasse atitudes de negar a humanidade. Ou seja, a numa situação específica, como fazer isso?

Vamos pensar em uma situação qualquer da vida humana para podermos entender como negar sua humanidade. Por exemplo, qual o seu sexo?

Participante: feminino.

Você é um espírito e, por isso, não tem sexo. Portanto, você não é do sexo feminino, mas a sua humanidade está feminina. Sendo assim, precisa ‘trabalhar’ para negar ser do sexo feminino.

Quando falamos assim, os seres humanizados, que são apaixonados por formas, imaginam que se trata de negar ser do sexo feminino através da forma. Isso é impossível, pois basta você se olhar no espelho que constará que está ligado numa forma feminina e, por mais que se eleve espiritualmente esta visão não se alterará. Portanto, não é através da negação da forma que você libertar-se-á da sua humanidade.

Acontece que todo espírito que está ligado a uma forma feminina tem em seu ego, em maior ou menor grau, a chamada feminilidade. É ela que determina o seu feminismo que caracteriza a sua humanização e não a forma. Portanto, é do seu feminismo que você precisa se libertar.

Falo do seu feminismo porque, como em qualquer coisa relacionada ao ego, o conjunto de verdades que compõem esta sua humanização é individual. Ou seja, cada espírito ligado ao feminismo possui verdades em ‘graus’ diferenciados.

São das características que formam o seu feminismo, que formam as paixões, que você precisa se libertar. É da vontade de que estas características sempre estejam presentes nos acontecimentos da sua vida carnal, o que caracteriza um desejo, que você deve se desprender se quiser alcançar a elevação espiritual, ou seja, a bem- aventurança, a felicidade incondicional.

Na hora que você libertar-se da influência das suas paixões sobre os acontecimentos da vida carnal, continuará presa num corpo feminino, mas não terá mais feminismo e, por isso, não será mais mulher. Só assim conseguirá o ser universal ter o estado de espírito de felicidade que Deus promete aos seus filhos e que caracteriza a perfeição que cada um precisa alcançar (pergunta 115).

Enquanto for mulher, ou seja, acreditar no feminismo que o ego cria, se alguém for contrário a esses seus padrões de feminilidade você o criticará e acusará porque ele feriu suas paixões. Ou seja, estará perdendo a equanimidade que Krishna afirma ser necessária para que se alcance a verdadeira sabedoria. Estará trocando o bem celeste pelo material ...

Acho que este foi um exemplo onde pode se pormenorizar a liberdade da humanização. Agora amplie tudo o que falei para os outros papéis que você exerce durante a vida: mãe, profissional, filha, religiosa, esposa, etc. Enfim, amplie este entendimento para todos os papéis da sua vida e verá o que quero dizer como libertação da humanização.

Saiba que por trás de cada papel que o ser humanizado vivencia existe sempre um grupo de verdades. Estas são paixões que Krishna e Buda citam e o bem material que Cristo e os apóstolos cristãos dizem que você precisa se desapegar.

Resumindo, abandonar a humanidade é: abandonar os conjuntos de verdades (paixões) que estão agregados a cada papel que o espírito representa na vida encarnada.

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Desinteresse sem vontade de se desinteressar

“896. Há pessoas desinteressadas, mas sem discerni- mento, que prodigalizam seus haveres sem utilidade real, por lhes não saberem dar emprego criterioso. Têm algum merecimento essas pessoas? Têm, o do desinteresse, porém não o do bem que poderiam fazer. O desinteresse é uma virtude, mas a prodigalidade irrefletida constitui sempre, pelo menos, falta de juízo. A riqueza, assim como não é dada a uns para ser aferrolhada num cofre forte, também não o é a outros para ser dispensada ao vento. Representa um depósito de que uns e outros por todo o bem que podiam fazer e não fizeram, por todas as lágrimas que podiam ter estancado com o dinheiro que deram aos que dele não precisavam”.

Neste texto do Espírito da Verdade o outro lado da moeda. Se por um lado você não pode desejar para si mesmo, por outro lado não pode desejar abrir mão.

O desinteresse pela vida carnal que comentamos no texto anterior, tem que ocorrer sem intencionalidades, sem vontade de se desinteressar, ou seja, sem a intenção de ser desinteressado. Este é um tema de difícil entendimento para os espíritos ligados a egos humanizados pois, por causa da característica dualista desse criador de ilusões, o que não é uma coisa, tem que ser outra. Não é isso que estamos falando.

Quando os seres humanizados descobrem os ensinamentos orientais (Buda, Krishna, Lao Tse) e compreendem que o fim da intencionalidade é um caminho para Deus passam a sofrer a ação do ego que cria a intenção de se libertar da intencionalidade. Quando aceitam tal verdade criada pelo ego não compreendem que ainda estão buscando o fim da intencionalidade por interesse próprio e não desinteressadamente.

Para que o desinteresse seja completo, o ser humanizado precisa alcançar a verdadeira equanimidade: quando participar de uma ação com pensamentos sem interesse, ótimo; quando não, ótimo do mesmo jeito.

Muitos aceitam a cobrança que o ego faz da prática de tudo aquilo que se aprende como caminho para a evolução espiritual. Aceitam a cobrança de ter que atingir a perfeição, mas não veem que ao se cobrar estão se prendendo a nova paixão que está gerando uma nova intenção.

Aceitar qualquer cobrança racional feita pelo ego e aceitar a sensação de sofrimento também lançada pelo criador de ilusões são posturas que aquele que busca a elevação espiritual não pode aceitar. O que deve ser feito por aquele que pretende aproximar-se do Pai é viver a vida como ele está, sem prazer ou dor.

É preciso que o ser universal encarnado compreenda que o ser humano no qual está transformado durante a encarnação, será sempre imperfeito. Este ser humano, ou seja, o ego, terá sempre momentos onde reagirá, emocional e racionalmente, de uma forma e terá momentos onde reagirá de outra maneira.

O que vocês, espíritos encarnados, precisam, é aprender a conviver com as vicissitudes (alternância de situações da vida) do ser humano. Como ensina o Espírito da Verdade, a vivência destas vicissitudes é um dos objetivos da encarnação e ‘nisso é que está a expiação’ (pergunta 132).

Por isso, não devem esperar que o ser humanizado em que se transformaram com a ligação com o ego, ou seja, com o conjunto de pensamento e sensações com que vivem, alcance a perfeição, ou seja, reaja sempre dentro de um só padrão. Se assim fosse não haveria vicissitude, não haveria expiação, a encarnação não teria sentido de existir.

O desinteresse pela vida não pode ser exercido pelo interesse em viver a vida de outra forma, mesmo que esta seja um padrão de elevação espiritual. Ou seja, não se pode alcançar a Deus interessando-se por chegar a Deus.

Não existem caminhos trilhados para chegar a Deus.

Outro dia estávamos estudando o Bhagavata Puranas e lemos que Krishna ensina assim: tudo que lhe vier à mente é fruto do seu ego e você não deve se prender a nada disso. Baseado neste ensinamento disse: não confie em ninguém e em nada, pois tudo o que você souber é fantasia fantasmagórica, simples alegoria.

Aí me perguntaram: nem em você. Respondi: nem em mim.

Neste momento as pessoas acostumadas a me ouvirem questionaram: mas, se não podemos confiar em ninguém nem em nenhum ensinamento, como vamos achar o caminho para a elevação espiritual?

Foi aí que respondi: para se chegar a Deus não tem caminho que pode ser reconhecido. Todo caminho (forma de proceder) que você achar para chegar a Deus é o trajeto mais curto para chegar ao ego, já que ele foi criado pela sua ilusória personalidade humana.

Viver é assistir a vida, ou seja, é simplesmente tomar conhecimento do que está acontecendo naquele momento sem se interessar nos valores que o ego está criando para ele. Se alguém ou você está praticando um ato, assista (perceba pelos órgãos dos sentidos), mas não acredita nos valores que o ego está criando para aquele acontecimento.

NOTA: Um exemplo que o amigo espiritual já havia dado em outras oportunidades, para facilitar a com- preensão do assunto. Se uma mão está ‘encontrando’ um rosto, perceba, mas não aceite o valor de agressão que o ego lançará à mente, à razão.

Viver não é lutar contra nada, mas libertar-se da influência da interpretação que o ego faz dos acontecimentos. Entenda que de nada adianta você lutar contra o ego (querer deixar de ter tal padrão de pensamento), pois ele vai sempre lhe vencer.

Isto acontece porque você só tem o ego para lutar racionalmente contra o ego. Se quiser impor a si mesmo uma nova verdade, esta imposição será feita pelo próprio ego e, assim, nada foi derrotado. Desta forma, a única coisa que você pode realmente é desinteressar-se do que o ego lhe diz.

O ego lhe diz que você está gordo, por exemplo. Se você não está atento no trabalho do desinteresse, começará a reparar (perceber) na ‘forma’ do seu corpo. Durante esta percepção ele lhe lançará a ideia de que tem que emagrecer. Pronto, está assumida uma condicionalidade para a felicidade. A partir de agora se você conseguir emagrecer será feliz, mas se não conseguir...

No momento que o ego lhe disser que está gordo não se interesse por isso. Se ele disser que tem que emagrecer, não transforme isso numa obrigação. Só assim você poderá ser feliz incondicionalmente. Ou seja, magro ou gordo.

Quem se liberta da intencionalidade embutida na racionalidade que o ego cria não vivencia nem o prazer (a satisfação de ter seus desejos atendidos) e nem do sofrimento (a insatisfação de não ter acontecido o que queria que ocorresse).

Esta é a realização espiritual de qualquer humanizado: viver apenas em Deus, para Ele e por Ele. E isso só se alcança quando ocorre o desinteresse pela vida, que é caracterizado pelo desinteresse por tudo aquilo que o ego ‘conversa’ (traz à razão) com você.

Não há caminho demarcado, ou seja, padrão racional de conhecimentos, que leve a Deus. Aprenda a viver o que você tem hoje liberto da ação de suas paixões e desejos. Só assim haverá o desinteresse e a equanimidade necessária para a evolução.

Participante: está sendo difícil desumanizar-se, mas estou entendendo o que o senhor quer dizer.

Antes de mais nada, pare de tentar entender. Quando você entende (cria uma compreensão lógica racional) está criando um caminho que achará que terá que trilhar para chegar a Deus. Por isso, esta sua compreensão de agora com certeza se transformará numa condicionalidade à felicidade amanhã.

No entanto, apesar de aceitar a criação de um caminho pelo ego, garanto que você já tem realizado algumas coisas. E mais: não está sendo difícil realizar.

Na verdade quem está dizendo que está sendo difícil é o seu ego e você está aceitando isso. E, sabe por que você acredita na dificuldade? Porque aceitou o padrão de certo criado pelo ego, aceitou a informação de que não está agindo dentro deste padrão e que, por isso, não está realizando tudo o que deveria estar fazendo.

No entanto eu lhe garanto: você já se libertou de muita coisa. Não queira saber o que e nem como fez isso porque senão estará criando novas realidades ilusórias para se prender.

A partir disto que estou lhe dizendo agora, esqueça tudo. Esqueça tudo que acha que conseguiu realizar e o que imagina que não conseguiu. Só assim poderá verificar realmente onde está.

Você não consegue sentir-se mais próximo de Deus (acha que não realizou nada) porque ainda aceita a cobrança de portar-se dentro de um determinado padrão que o ego faz trazendo à razão apenas a compreensão do que ‘deixou de fazer’. Ou seja, imagina que deveria ter mudado algumas atitudes em determinados momentos. Mas, saiba, não há nada o quer ser mudado.

A psicologia tem um ensinamento que é muito parecido com o que estou ensinando agora: se aceite do jeito que é. Ame-se do jeito que está. Isso prova o seu desinteresse pela vida.

Virtude e vício

O bem deve ser feito sem interesses individuais

“897. Merecerá reprovação aquele que faz o bem, sem visar a qualquer recompensa na Terra, mas esperando que lhe seja levado em conta na outra vida e que lá venha a ser melhor a sua situação? E essa preocupação lhe prejudicará o progresso? ‘O bem deve ser feito caritativamente, isto é, com desinteresse”.

O bem deve ser feito sem interesses individuais. Esta é uma regra que nada afeta.

De forma jocosa diz-se no planeta que existem alguns que servem ao próximo para poder garantir o seu terreno no céu. Isto é verdade: existem espíritos encarnados que fazem pelo próximo para poder garantir para si um futuro espiritual melhor.

Mas, esta forma de proceder não leva o ser universal a conquistar nada. Enquanto houver interesse pessoal nada é conquistado, não importa o ato que é praticado.

Virtude e vício

O bem é sempre o bem

“897a. Contudo, todos alimentam o desejo muito natural de progredir, para forrar-se à penosa condição desta vida. Os próprios Espíritos nos ensinam a pra- ticar o bem com esse objetivo. Será, então, um mal pensarmos que, praticando o bem, podemos esperar coisa melhor do que temos na Terra? ‘Não, certa- mente; mas aquele que faz o bem, sem ideia preconcebida, pelo só prazer de ser agradável a Deus e ao seu próximo que sofre, já se acha num certo grau de progresso, que lhe permitirá alcançar a felicidade muito mais depressa do que seu irmão que, mais positivo, faz o bem por cálculo e não impelido pelo ar- dor natural do seu coração”. (894)

O bem, ou universalismo, é sempre o bem. O amor ao próximo também é sempre o amor ao próximo. Mas, o amor ao próximo interessado é ‘menos elevado’ (menos universalizado) do que o amor ao próximo interessado.

Este ensinamento fica muito fácil de ser compreendido quando se entendemos o desinteresse como fundamento para se viver uma vida que sirva como instrumento de elevação espiritual.

Tudo que se faz, espiritual e materialmente, tem importância nesta e em todas as existências do espírito. Mas, aquilo que é feito sem esperar receber lucro pessoal, mesmo que este seja apenas um muito obrigado ou a satisfação de ter praticado, é muito mais universalizado e, por isso, serve como caminho para a sintonia com o UM. Já aquelas ações materiais ou espirituais que são realizadas objetivando-se algum bem ainda estão presas ao individualismo e, por isso, não servem para a elevação espiritual.

Virtude e vício

Receber os frutos da ação

“897b. Não haverá aqui uma distinção a estabelecer- se entre o bem que podemos fazer ao nosso próximo e o cuidado que pomos em corrigir-nos dos nossos defeitos? Concebemos que seja pouco meritório fazermos o bem com a ideia de que nos foi levado em conta na outra vida; mas será igualmente indício de inferioridade emendarmo-nos, vencermos as nossas paixões, corrigirmos o nosso caráter, com o propósito de nos aproximarmos dos bons Espíritos e de nos elevarmos? ‘Não, não. Quando dizemos – fazer o bem, queremos significar – ser caridoso. Procede como egoísta todo aquele que calcula o que lhe possa cada uma das suas boas ações render na vida futura, tanto quanto na vida terrena. Nenhum egoísmo, porém, há em querer o homem melhorar-se, para aproximar-se de Deus, pois que é o fim para o qual devem todos tender”.

O Espírito da Verdade continua ensinando que a elevação espiritual depende unicamente do desinteresse de receber os frutos das ações, espiritual ou material, nesta ou em outra vida. A partir desta afirmação, vamos, então, nos aprofundar em outros ensinamentos. Por exemplo: Cristo ensinou que os mais importantes mandamentos para quem busca a elevação espiritual são o amor a Deus e ao próximo. Entendamos este ensinamento à luz do desinteresse.

Repare que Cristo não falou simplesmente em amar ao próximo, mas amar ao seu irmão como a si mesmo. Ao decretar este duplo sentido para o amor, o mestre ensinou a necessidade da realização de dois trabalhos: servir ao próximo e a você mesmo.

Juntando-se a isso o ensinamento atual do desinteresse podemos, então, compreender que devemos amar ao próximo e a nós mesmos de uma forma desinteressada. Mas, como seria amar ao próximo de uma forma desinteressada? Será que apenas não esperar o reconhecimento pelo que foi feito já se caracteriza o desinteresse ensinado pelo Espírito da Verdade?

Não. Como vimos o serviço espiritual deve possuir dois direcionamentos (ao próximo e a si) e, portanto, o desinteresse também o deve ser. Sendo assim, para que haja aproveitamento no sentido da elevação espiritual, o serviço ao próximo não pode fundamentar-se em interesses para si, mas também não pode ser executado objetivando o interesse do próximo. Vou explicar.

Quem busca servir ao próximo não pode esperar ganhar nada com isso, mas também não pode querer dar nada aos outros, pois isso caracterizará uma intencionalidade. Para os seres humanizados isso é quase impossível, pois sempre que buscam servir ao próximo estabelecem logo uma meta, um objetivo, um para que praticar tal ação.

Por exemplo, oram para que o próximo tenha saúde, para que ele arrume um emprego, para que consiga resolver o problema que está lhe agoniando, etc. Ou seja, fazem pelo próximo interessadamente.

O verdadeiro serviço ao próximo, o verdadeiro amar, é aquele que não coloca objetivo algum, que não é forjado em interesse nenhum. Ama o próximo aquele que simplesmente diz ‘Pai, que seja feita a sua vontade assim na Terra como no céu’, não aquele que diz: “Pai, eu quero que aconteça isso ou aquilo para o próximo’.

Amar ao próximo é participar das ações da vida sem anexar a elas nenhum interesse individual, mesmo que, aparentemente, este desejo seja o melhor para o outro. É viver a vida como ela é, sem condicionar a felicidade a qualquer realização.

Ama o próximo aquele que convive em paz e harmonia com o sofrimento alheio sem esperar que ele acabe, pois entende que Deus já está dando ao seu irmão aquilo que ele precisa para a elevação espiritual, mesmo que assim não seja compreendido pelo outro. Só assim este ser humanizado estará realmente amando o seu irmão, pois o ensinará a também não ter desejos individuais que condicionem a sua felicidade e, com isso, demonstrar o seu amor a Deus acima de todas as coisas.

Portanto, o amor ao próximo não pode ser executado dentro de padrões que precisem ser atendidos (fazer o que o outro quer, o que é considerado como certo ou bom) nas ações. A partir deste entendimento, podemos, então, falar mais um pouco de um modo de proceder que não caracteriza o amor a si: a auto condenação.

Quando o ser humanizado coloca padrões de realizações para o serviço ao próximo e não consegue que eles se tornem realidade, acusa-se de estar errado, de ter levado o mal para o próximo. Tal postura, que, aparentemente, é louvável, no entanto, caracteriza o não amor a si mesmo, a falta de caridade com si.

Anteriormente declaramos que o amor (serviço) ao próximo dentro da lei da caridade se caracteriza pela benevolência, perdão e indulgência. Ora, se isto é real ao próximo, também o é conosco mesmo.

Para que possamos ter o amor a nós mesmos, que é necessário para que amemos o próximo segundo Cristo, precisamos, antes de mais nada, aplicar a lei caridade em nós mesmos. Ou seja, precisamos aprender a ser benevolentes e indulgentes conosco e a exercer o auto perdão. Para isso, no entanto, é preciso que trabalhemos contra nós mesmos, lutando para libertar-nos de nossa prisão aos padrões de realizações, que são as nossas paixões.

Aí está, então, em seu mais amplo sentido, o mandamento trazido por Cristo: é preciso vivenciar-se os acontecimentos desta vida liberto de todos os padrões de certo e errado, bom e mal, que aplicamos ao que os outros e nós mesmos fazemos, para que a vida possa ser vivida de uma forma desinteressada.

Isto é amar a Deus sobre todas as coisas, pois o estado de espírito de paz e harmonia (bem-aventurança) que se adquire resulta da fé e da participação da vida à partir Dele. Isto é amar ao próximo como a si mesmo, pois o amor universal é fundamentado, principalmente, na felicidade universal (incondicional).

Desta forma, podemos dizer que a realização dos objetivos da encarnação depende do quanto o ser humanizado for benevolente e indulgente consigo e com o próximo e da capacidade de perdoar a si e aos outros.

Mas, deixe-me dizer uma coisa. Juntando o tempo em que sirvo a Deus através do trabalho na umbanda e no atual, já estou há bastante tempo convivendo com espíritos encarnados e o que pude observar é que existem muito mais seres humanizados que possuem o ‘dedo virado para si mesmo’ (vivem em auto acusação) do que aqueles que acusam os outros.

A tristeza oriunda da culpa, segundo Cristo, é o mais venenoso antagonista que qualquer postulante do reencontro com Deus pode encontrar.

NOTA: Este é o texto a que se refere o amigo espiritual. Ele encontra-se no livro Jesus no Lar, escrito pela mediunidade de Chico Xavier, ditado pelo espírito Neio Lúcio. Ele traz o título de ‘O venenoso antagonista’ e está no capítulo 40 do citado livro.

Diante da noite, refrescada de brisas cariciantes, Filipe, de mãos calejadas, falou das angústias que lhe povoavam a alma, com tanta emotividade e amargura que aflitivas notas de dor empolgaram a assembleia. E interpelado pelo respeitoso carinho de Pedro, que voltou a tanger o problema das tentações, o Mestre contou pausadamente:

- O Senhor, Nosso Pai, precisou de pequeno grupo de servidores numa cidade revoltada e dissoluta e, para isso, localizou no centro dela uma família de cinco pessoas, pai, mãe e três filhos que o amavam e lhe honravam as leis sábias e justas.

Aí situados, os felizes colaboradores começaram por servi-lo, brilhantemente.

Fundaram altivo núcleo de caridade e fé transformadora que valia por avançada sementeira de vida celeste; e tanto se salientaram na devoção e na prática da bondade que o Espírito das Trevas passou a mover-lhes guerra tenaz.

A princípio, flagelou-os com os morcegos da maledicência; todavia, os servos sinceros se uniram na tolerância e venceram.

Espalhou ao redor deles, logo após, as sombras da pobreza; contudo, os trabalhadores dedicados se congregaram no serviço incessante e superaram as dificuldades.

Em seguida, atormentou-os com as serpentes da calúnia; entretanto, os heróis desconhecidos fizeram construtivo silêncio e derrotaram o escuro persegui- dor.

Depois de semelhantes ataques, o Gênio Satânico modificou as normas de ação e enviou-lhes os demônios da vaidade, que revestiram os servos fiéis do Senhor de vastas considerações sociais, como se houvessem galgado os pináculos do poder de um momento para o outro; entretanto, os cooperadores previdentes se fizeram mais humildes e atribuíram toda glória que os visitava ao Pai que está nos céus.

Foi então que os seres escarninhos e perversos encheram-lhes a casa de preciosidades e dinheiro, de modo a entorpecer-lhes a capacidade de trabalhar; mas o conjunto amoroso, robustecido na confiança e na prece, recebia moedas e dádivas, passando-as para diante, a serviço dos desalentados e dos aflitos.

Exasperado, o Espírito das Trevas mandou-lhes, então, o Demônio da Tristeza que, muito de leve, alcançou a mente do chefe da heróica família e disse-lhe, solene:

- És um homem, não um anjo... Não te envergonhas, pois, de falar tão insistentemente no Senhor, quando conheces, de perto, as próprias imperfeições? Busca, antes de tudo, sentir a extensão de tuas fraquezas na carne! Chora teus erros, faze penitência perante o Eterno! Clama tuas culpas, tuas culpas...

Registrando a advertência, o infeliz alarmou-se, esqueceu-se de que o homem só pode ser útil à grandeza do Pai, através do próprio trabalho na execução dos celestes desígnios e, entristecendo-se profunda- mente, acreditou-se culpado e criminoso para sempre, de maneira irremediável. Desde o instante em que admitiu a incapacidade de reerguimento, recusou a alimentação do corpo,. deitou-se e, decorridos alguns dias, morreu de pesar.

Vendo-o desaparecer, sob compacta onda de lamentações e lágrimas, a esposa seguiu-lhe os passos, oprimida de inominável angústia, e os filhos, dentro de algumas semanas, trilharam a mesma rota.

E assim o venenoso antagonista venceu os denoda- dos colaboradores da crença e do amor, um a um, sem necessidade de outra arma que não fosse pequena sugestão de tristeza.

Interrompeu-se a palavra do mestre, por longos instantes, mas nenhum dos presentes ousou intervir no assunto.

Sentindo, assim, que os companheiros preferiam guardar silêncio, o Divino Amigo concluiu expressivamente:

- Enquanto um homem possui recursos para trabalhar e servir com os pés, com as mãos, com o senti- mento e com a inteligência, a tristeza destrutiva em torno dele não é mais que a visita ameaçadora do Gênio das Trevas em sua guerra desventurada e persistente contra a luz.

Portanto, viva o que você está acontecendo a qualquer momento de sua existência com um estado de espírito de felicidade incondicional, mesmo que isto não possa ser considerado ‘certo’ ou ‘bom’ pelos padrões humanos. Este é o resumo do amor ao próximo como a si mesmo, do serviço a Deus.

Participante: auto culpa é tradição deixada pelas religiões.

Auto culpa não é tradição religiosa, mas programação do ego. Isso porque a auto culpa não é universal, ou seja, não ocorre em todos os seres humanizados que frequentam uma mesma religião.

Então, o culpar-se não é ditado pela tradição religiosa, mas por cada um, pelo ego de cada um. Por isto afirmo: é prova para o espírito. Foi você, o ser universal que agora está humanizado, que colocou este elemento no ego ao qual está ligado atualmente para vencê-lo.

Para isso, não se culpe nunca, nem que seja culpar-se de estar se culpando, como está fazendo agora que acha que compreendeu o que quis dizer. O que você precisa é libertar-se de todas as culpas e não adquirir mais uma...

Virtude e vício

Conhecimento científico

“898. Sendo a vida corpórea apenas uma estada temporária neste mundo e devendo o futuro constituir objeto da nossa principal preocupação, será útil nos esforcemos por adquirir conhecimentos científicos que só digam respeito às coisas e às necessidades materiais? ‘Sem dúvida. Primeiramente, isso vos põe em condições de auxiliar os vossos irmãos; depois, o vosso Espírito subirá mais depressa, se já houver progredido em inteligência. Nos intervalos das encarnações, aprendereis numa hora o que na Terra vos exigiria anos de aprendizado. Nenhum conheci- mento é inútil; todos mais ou menos contribuem para o progresso, porque o Espírito para ser perfeito tem que saber tudo, e porque, cumprindo que o progresso se efetue em todos os sentidos, todas as ideias adquiridas ajudam o desenvolvimento do Espírito”.

Participante: estamos falando aqui de conhecimento científico material?

Conhecimento científico material e espiritual. Aliás, somente de espiritual, já que tudo é espiritual e a matéria é apenas uma ilusão projetada pelos egos.

Você deve estar estranhando a afirmação do Espírito da Verdade já que eu sempre digo que o ser humanizado não precisa ter o conhecimento científico que é classificado como material. Sempre afirmei isso, mas, jamais disse que não precisa ou não pode tê-lo.

Você pode tê-lo, mas, antes de buscá-lo, precisa compreender que a falta dele não é demérito algum. A partir desta compreensão não deve, então, colocar a obtenção deste conhecimento como objetivo de vida. Vou exemplificar.

Digamos que em uma determinada encarnação consiga adquirir conhecimentos e se forme em doutor em qualquer ciência. Em outra, não aprende nem a ler nem a escrever. Qual destas foi a mais importante na sua jornada eterna: a que você aprendeu ensinamentos materiais ou aquela onde isso não ocorreu?

Não sei dizer, pois a elevação espiritual não é sinal de cultura, mas determinada pela capacidade de amar que, como já vimos, depende do não vivenciar os acontecimentos da vida com interesses individuais. Ou seja, a existência mais importante foi aquela onde você vivenciou os acontecimentos mais desinteressadamente.

Se, ao tornar-se doutor, passou a se interessar pelos ensinamentos adquiridos, não aproveitou a encarnação para evoluir; mas se, ao não possuir cultura, teve interesse por essa carência, ou seja, quis acabar com ela, também não aproveitou a encarnação. Agora, independente do seu grau de conhecimentos materiais, se eles não foram objetos de seu interesse durante a vida (o querer ter ou não), aí você conseguiu eliminar o individualismo.

Entenda que o conhecimento científico, mesmo aquele que está ligado às coisas materiais (do mundo espiritual) não é primordial para a elevação espiritual. Pelo contrário, muitas vezes ele dificulta o trabalho da elevação espiritual. Isto porque cria o saber, que é composto pelos padrões de ‘certo’ e ‘errado’ (paixões) que fundamentam a ação do individualismo (interesse pessoal).

É naquilo que se ‘sabe’ que o individualismo se fundamenta e o egoísmo nasce exatamente como defesa do patrimônio cultural (sabedoria) de cada um. Por isso Cristo disse: ‘louvado seja Deus que mostra aos simples aquilo que esconde dos sábios’. Só quando o amar ao próximo (relacionar-se desinteressadamente) é o objetivo da encarnação, o ser humanizado consegue compreender os desígnios de Deus e harmonizar com o Todo Universal.

Sendo assim, a cultura ou conhecimento de um ser humanizado serve como prova para o espírito. Isso quer dizer que se ele estiver programado para uma determinada encarnação acontecerá, mas se a provação estiver na carência, será ela que ocorrerá e nada poderá fazer com que aquele ser humanizado a adquira.

O que quero dizer, que ninguém deve adquirir cultura? Não, que você pode adquirir conhecimento científico, mas que isso só acontecerá se você (espírito) mesmo tiver programado tal acontecimento para sua encarnação. Se não tiver feito, jamais conseguirá. Por isso, a busca do conhecimento não deve se transformar no ‘trabalho’ da sua vida, mas sim o buscar viver desinteressadamente.

Virtude e vício

Riqueza

“899. Qual o mais culpado de dois homens ricos que empregam exclusivamente em gozos pessoais suas riquezas, tendo um nascido na opulência e desconhecido sempre a necessidade, devendo o outro ao seu trabalho os bens que possui? ‘Aquele que conheceu os sofrimentos, porque sabe o que é sofrer. A dor, a que nenhum alívio procura dar, ele a conhece; porém como frequentemente sucede, já dela se não lembra”.

Na verdade os dois não colocaram o seu patrimônio à disposição de todos, o que, como afirmou o Espírito da Verdade anteriormente, deveria ser a intencionalidade daquele que busca a elevação espiritual.

Agora, com relação à questão de mais ou menos, prefiro não me envolver. Afirmar-se que um é mais ou menos culpado do que o outro é uma questão de julgamento e, para poder me dizer seguidor de Cristo, prefiro não julgar ninguém.

Aquele que vive na Unidade Universal conhece a Realidade (tudo é uno) e, por isso, não aceita classificações de mais ou menos. Só o espírito humanizado, ou seja, ligado a um ego terrestre que é dual, tem as escalas de mérito e demérito, de mais ou menos.

Estas escalas não existem nos mundos espiritualizados. Lá os seres universalizados sabem que qualquer vivência fundamentada num interesse pessoal é individualismo, não importando o tipo ou qualquer outro aspecto desta vivência.

Virtude e vício

Amealhar bens

“900. Aquele que incessantemente acumula haveres sem fazer o bem a quem quer que seja, achará desculpa, que valha, na circunstância de acumular com o fito de maior soma legar aos seus herdeiros? ‘É um compromisso com a consciência má”.

É um compromisso com o seu individualismo.

Aliás, com relação à esta questão de legar bens aos seus, vocês já repararam que normalmente o pai se preocupa em deixar uma fortuna para seus descendentes e os filhos acabam com ela? Não vou dizer que isto é regra, mas não é o normal de acontecer?

Por quê? Porque o espírito que está vivenciando o papel de filho não poderá receber nada que não lhe tenha sido programado como instrumento da encarnação. Não podemos esquecer que este ‘filho’ é um espírito e como tal tem que receber o seu ‘legado’ de seu Pai verdadeiro, Deus, e não do material.

Na realidade, a intuição de legar, o desejo de deixar algo para os filhos, é uma prova para o ser que está vivenciando o papel de pai. Trata-se de uma provação de intencionalidade.

Então, não há desculpas para se justificar o interesse em amealhar bens materiais. Nem a carência própria nem a dos seus pode servir de justificativa para aquele que tem como objetivo de vida juntar bens ao invés de colocá-los à disposição de todos, como ensinou anteriormente o Espírito da Verdade.

Aliás Cristo perguntou: se Deus alimenta os pássaros, porque você se preocupa com o que vai comer amanhã? Se Deus veste as flores com roupas mais lindas dos que as usadas por Salomão, porque você se preocupa com o que vai vestir amanhã? Não se preocupe: Deus provê.

Participante: na verdade, Joaquim, como ensinado, a parte material, o ato de legar ou não, já está escrito. O que vale, neste caso, é o sentimento de querer ou não deixar para os seus. É isso?

Sim. O que está em jogo aqui não é o ato de legar, mas sim o aprisionamento ao desejo de ‘melhorar’ a vida dos seus, de prover um futuro ‘melhor’ para eles, pois isso se constitui num interesse pessoal que, como já vimos, pode até ser considerado louvável pelos seres humanizados, mas que não reflete o amor ensinado pelo Cristo.

Virtude e vício

Gozo do bem material

“901. Figuremos dois avarentos, um dos quais nega a si mesmo o necessário e morre de miséria sobre o seu tesouro, ao passo que o segundo só o é para os outros, mostrando-se pródigo para consigo mesmo; enquanto recua ante o mais ligeiro sacrifício para prestar um serviço ou fazer qualquer coisa útil, nunca julga demasiado o que despenda para satisfazer aos seus gostos ou às suas paixões. Peça-se-lhe um obséquio e estará sempre em dificuldade para fazê-lo; imagine, porém, realizar uma fantasia e terá sempre o bastante para isso. Qual o mais culpado e qual o que se achará em pior situação no mundo dos Espíritos? ‘O que goza, porque é mais egoísta do que avarento. O outro já recebeu parte do seu castigo”.

Que belo ensinamento: o outro já recebeu porque nem consigo gastava. Ou seja, passou por vicissitudes negativas como fruto da sua intencionalidade. Este é o mote da lei do carma e só esta frase já encerra um grande ensinamento: se colhe exatamente o que se planta.

Mas, vamos aproveitar este texto para conversar mais sobre a questão do que é viver, ou seja, aproveitar a encarnação para se cumprir os objetivos deste elemento espiritual. Aquele que, além de viver para amealhar bens materiais, também fundamenta a sua existência no gozo individualmente deste bem, comete ações contrárias à elevação espiritual.

Fiel ao que falei anteriormente, não direi que quem assim procede é mais ou menos faltoso do que o outro, mas que ele comete dois atos contrários à busca espiritual. Primeiramente ao querer para si os bens materiais e, posteriormente, quando não busca dividir aquilo que consegue com o próximo.

Este é o ensinamento fundamental deste trecho. Mas, para que possamos ampliar nossa compreensão sobre como aproveitar a encarnação para alcançar a elevação espiritual, gostaria de retirar deste texto o sentido que foi dado ao bem material: dinheiro, propriedades, joias, enfim, objetos materiais. Gostaria que levássemos a compreensão do termo bem material a elementos mais efêmeros. Por exemplo: o tempo da vida carnal.

Vocês já viram que existem seres humanizados que ‘não têm tempo’ para fazer nada para o outro, mas encontram sempre para fazer o que desejam? Ou seja, nunca têm tempo para os outros, mas que nunca falta quando o objetivo é fazer o que quer?

Quando se fala com estes seres humanizados em realizar alguma coisa em favor do próximo eles estão sempre ocupados com assuntos inadiáveis, ou seja, sempre precisam fazer algo que suas paixões e desejos dizem que deve ser executada naquele momento. Isso é amor ao próximo? Isso é viver para servir como Paulo ensinou?

Claro que não. Mas, para compreendermos desse jeito tivemos que desmistificar o entendimento do termo coisas materiais. Foi preciso que deixemos de acreditar que coisas materiais são os objetos, mas tudo o que se vivencia na vida carnal.

O tempo é um bem terrestre que o espírito adquire apenas por estar encarnado. Mas, se além de receber este bem o ser humanizado quer gastá-lo apenas com os seus interesses, comete duplo equívoco no tocante ao aproveitamento da vida como elevação espiritual.

Como todo bem terrestre, o tempo (espaço que os humanos contam como segundos, minutos, horas, dias, etc.) também foi gerado por Deus para servir ao espírito encarnado como instrumento da sua elevação espiritual. Ou seja, foi criado para que ele fosse ‘consumido’ livre de intencionalidades, liberto do querer criado pelo ego.

Aproveita o tempo aquele que não se preocupa com o que faz. Esta é a realização que Buda e Krishna chamam de não-ação: usar o tempo (participar das ações) sem interesses individuais. Quem vive a não-ação sempre tem tempo para realizações e serviço a si e ao próximo, pois nunca quer nada.

A compreensão da negação (não-ação, não vivência, etc.) ensinada pelos mestres hindus como ação sem intencionalidade ao invés da não pratica do elemento, é fundamental para qualquer um que pretenda elevar-se espiritualmente. Por isso o Espírito da Verdade dedica um capítulo inteiro para falar disso.

Amplie a compreensão do que estamos falando agora para o amar. Existem espíritos encarnados que querem utilizar toda a sua capacidade de amar exclusivamente a si mesmo ao invés dos outros. Por isso, estão sempre justificando todos os momentos de sua vida, mas não justificam nada na dos outros.

Pense sobre a paciência, o perdão, etc. A grande maioria dos espíritos encarnados sempre aplica primeiramente aquilo que é considerado como certo e bom pela humanidade a si mesmo, para só depois aplicá-lo ao próximo.

Esta forma de proceder cria o duplo equívoco que o Espírito da Verdade fala neste texto que não permite que o espírito encarnado aproveite a oportunidade da encarnação. Isto porque quem vive desse jeito fundamenta-se no individualismo, pois quer tudo para si, ou seja, quer gozar consigo mesmo o que é universal.

Vamos pensar nisso. Os seres humanizados nasceram para servir à humanidade e não para se servir do mundo. Nasceram para, através da libertação do individualismo gerado pelo ego, participar das ações sem que nenhuma intencionalidade possa afetar o estado de espírito de paz, felicidade e harmonia com o Todo Universal.

O espírito humanizado nasceu para estar à disposição da humanidade.

Esta é uma frase que usávamos nesse trabalho no início: Espiritualismo Ecumênico Universal, à disposição da humanidade. Fazíamos assim porque esta é uma característica do espírito integrado ao Universo.

Quem se liberta do seu individualismo está sempre pronto para o serviço ao próximo. Ele tem tempo para tudo, ama a todos, tem paciência, benevolência e indulgência com qualquer um, pois para ele não existe mais uma escala de prioridades que começa em atender a si mesmo.

Por isso está sempre pronto para servir o próximo. Para ele não há nenhum entrave para esse serviço, pois todas as dificuldades para servir ao próximo são criadas quando existe um desejo individualista fundamentado a partir de uma paixão individual.

Estar sempre aberto a viver o que está acontecendo sem se prender às suas próprias vontades e desejos é a prioridade daquele que se aproxima de Deus.

Virtude e vício

Desinteresse

“902. Será reprovável que cobicemos a riqueza, quando nos anime o desejo de fazer o bem? ‘Tal sentimento é, não há dúvida, louvável, quando puro. Mas, será sempre bastante desinteressado esse desejo? Não ocultará nenhum intuito de ordem pessoal? Não será de fazer o bem a si mesmo, em primeiro lugar, que cogita aquele, em quem tal desejo se manifesta”?

Neste texto a resposta é formada por outras perguntas pois o Espírito da Verdade quer nos levar a questionarmos o nosso interior. Será que é tão desinteressado assim o nosso desejo de ganhar na loteria, por exemplo? Para provar o desinteresse alguns até prometem que se ganharem darão parte do prêmio a uma instituição de caridade. Mas, e o resto?

Vocês me diriam que há gente que prometeria doar tudo e, com isso, provaria o seu desinteresse. Será que, mesmo doando tudo, podemos realmente afirmar que um ser humanizado não teria interesse individual algum envolvido?

Há um ensinamento profundo nesse texto, um individualismo proposto pelo ego de forma camuflada que o espírito não se dá conta. É por isso que o Espírito da Verdade faz tanta pergunta: para nos aprofundamos na questão e compreendermos esse individualismo velado.

Será que realmente está agindo tão desinteressadamente aquele que promete doar a totalidade do que ganhar a instituições de caridade? Será que ele não espera nem um muito obrigado, um sorriso, ou seja, alguma forma de reconhecimento pelo que fez?

Apesar destes elementos esperados não aparentarem um lucro individual, eles compõem uma provação gerada pelo ego que chamamos de fama individual. Esta fama não é representada por aparecer na televisão, ser capa de revista, ou reconhecido na rua, mas se consiste em apenas ser bem reparado pelos outros.

Aquele que quer ou espera que os outros reconheçam a sua capacidade de doação ou a sua sublimidade, participam dos acontecimentos com o interesse de alcançar a fama individual. Ela, portanto, é uma motivação com a qual os espíritos humanizados participam dos acontecimentos da vida, apesar de imaginarem que estão agindo desinteressadamente.

Aquele que busca aproveitar a encarnação no seu sentido espiritual precisa atentar com este aspecto. Precisa estar muito atento à ação do ego observando constantemente para o seu interior para ver se realmente está agindo desinteressadamente ou se o ego ainda cobra o reconhecimento dos outros.

Para isso questione-se constantemente no sentido de saber como reagiria se, ao doar-se integralmente, aquilo que espera como reação do outro (concordância, amizade, aceitação, felicidade) não aconteça. Será que sofreria, ficaria ressentido com o próximo, o criticaria? Se a resposta foi sim, saiba que a sua participação nesse episódio da vida foi fundamentada na esperança de ser reconhecido, de ter a sua ação reconhecida, de ter mérito.

Krishna ensina que o verdadeiro sábio é livre da ação do mérito e demérito. Para isso ele não julga nada para saber se está ‘certo’ ou ‘errado’. Mas para poder não julgar é preciso que não haja nenhum individualismo em ação.

Quando isso correr poderemos desejar uma fortuna realmente com a intenção de ajudar os outros. Mas enquanto humanizados, presos ao ego, às intenções da vida, o individualismo falará mais alto e o egoísmo será a base de tudo que vivencia nessa vida.

Virtude e vício

Observar as atitudes dos outros

“903. Incorre em culpa o homem, por estudar os de- feitos alheios? ‘Incorrerá em grande culpa, se o fizer para criticar e divulgar, porque será faltar com a caridade. Se o fizer, para tirar daí proveito, para evitá-los, tal estudo poderá ser-lhe de alguma utilidade. Importa, porém, não esquecer que a indulgência para com os defeitos de outrem é uma das virtudes contidas na caridade. Antes de censurardes as imperfeições dos outros, vede se de vós não poderão dizer o mesmo. Tratai, pois, de possuir as qualidades opostas aos defeitos que criticais no vosso semelhante. Esse o meio de vos tornardes superiores a ele. Se lhe censurais o ser avaro, sede generosos; se o ser orgulhoso, sede humildes e modestos; se o ser ás- pero, brando; se o proceder com pequenez, sede grandes em todas as vossas ações. Numa palavra, fazei por maneira que se não possam aplicar estas palavras de Jesus: vê o argueiro no olho do seu vizinho e não vê a trava no seu próprio”.

Esta pergunta e a respectiva resposta estão completamente de acordo com ensinamento crístico: é preciso tirar a trave do seu olho para que não veja o cisco no olho do próximo.

Este é um ensinamento que deve ser seguido por todo aquele que pretende alcançar a elevação espiritual, principalmente por aqueles que se dizem cristãos, seguidores de Cristo. Estes, portanto, não devem observar o erro dos outros.

Mas, daí se afirmar que é proibido ou errado fazer esta observação, seria a mesma coisa que negar a Realidade do mundo espiritual. Vamos entender o assunto.

Como vimos anteriormente, o Espírito da Verdade ensina que os seres espirituais na erraticidade preparam-se para novas encarnações praticando a observação da forma como os encarnados relacionam-se com seu ego durante a ‘vida carnal’. Ou seja, a forma como os espíritos aprendem para depois poder fazer suas provações, é observar o que os seus irmãos fazem.

Assim sendo, se fosse proibido observar as atitudes espirituais do próximo, o ser universal desencarnado não poderia aprender nada na erraticidade e, portanto, nada teria a provar e jamais se elevaria. A observação, portanto, por si só não é proibida ou considerada ‘errada’, mas, para que ela seja válida é preciso, como diz o Espírito da Verdade neste texto, se observar qual a intenção com que ela é praticada.

‘Se o fizer, para tirar daí proveito, para evitá-los, tal estudo poderá ser-lhe de alguma utilidade’. Ou seja, a observação da forma de proceder do próximo pode ser feita, mas ela precisa ser executada apenas como aprendizagem sem unir-se a esta observação qualquer crítica.

A análise da forma de um ser humanizado relacionar-se com o seu ego, seja por parte do espírito encarnado ou não, deve ser realizada apenas com a intenção de se tomar ciência do que está sendo feito, constatar o está acontecendo. Dela jamais deve resultar a crítica ou a acusação. A observação que auxilia o ser encarnado no processo de reforma íntima é aquela onde ele se cientifica de um individualismo praticado por outrem, sem acusá-lo de mau, errado, feio, imoral, etc.

Mas, como praticar tal observação? Juntando-se a ela a caridade. Se o ser humanizado observar o próximo exercendo a indulgência, a benevolência e o perdão àquilo que observou como atitude individualista, certamente tal forma de proceder pode auxiliar na elevação espiritual. Agora, se além de observar o ser humanizado ainda se deixar levar pela onda de acusações caluniosas que o ego cria (a trave do seu olho), tal exercício de nada lhe valerá no sentido da elevação espiritual.

Portanto, aí está mais um trabalho de ‘patrulhamento’ que o ser humanizado deve exercer sobre as verdades que o ego vivencia: não acreditar nas acusações caluniosas que o ego cria à partir das observações feitas sobre o proceder do próximo.

Virtude e vício

Falar dos outros

“904. Incorrerá em culpa aquele que sonda as chagas da sociedade e as expõe em público? ‘Depende do sentimento que o mova. Se o escritor apenas visa produzir escândalo, não faz mais do que proporcionar a si mesmo um gozo pessoal, apresentando quadros que constituem antes mau do que bom exemplo. O Espírito aprecia isso, mas pode vir a ser punido por essa espécie de prazer que encontra em revelar o mal”.

Novamente o mesmo tema da pergunta anterior: constatar a forma como um espírito relaciona-se com a comunidade espiritual, encarnada ou não. Só que nesta pergunta, além da constatação individual, existe ainda o fato da divulgação daquilo que se concluiu.

A constatação do individualismo (mau) do próximo, seja para uso individual ou para divulgação, sempre nos auxilia no processo de evolução, mas se dela decorrer a crítica, tal atitude não nos leva a nada. Ou seja, sempre que o sentido ou a intenção for de ‘melhorar- se’ ou ajudar o próximo a se elevar, com certeza ela é válida, mas quando objetivar expor o ‘erro’ do próximo à execração individual ou pública, tal atitude não se fundamenta jamais no amor universal.

Portanto, aquele que da sua observação sobre o não amar universalmente critica o próximo ou vangloria-se, nada faz para a sua própria evolução. Tal atitude pode até servir como fonte de prazer, mas em nada auxilia no amealhar o bem celeste (felicidade incondicional).

Por isso Cristo ensina: fora da caridade (indulgência, perdão e benevolência) não há salvação.

Virtude e vício

Ame a tudo e todos

“904a. Como, em tal caso, julgar da pureza das intenções e da sinceridade do escritor? ‘Nem sempre há nisso utilidade. Se ele escrever boas coisas, aproveitai-as. Se proceder mal, é uma questão de consciência que lhe diz respeito, exclusivamente. Demais, se o escritor tem empenho em provar a sua sinceridade, apoie o que disser nos exemplos que dê”.

Ora, se o que estamos aprendendo com o Espírito da Verdade é que nada pode ser avaliado com uma condenação, para que saber se aquele que está divulgando ensinamentos espirituais o está fazendo com este ou aquele objetivo? Tal certeza só serviria como julgamento e de nada auxiliaria na sua elevação.

Portanto, ao invés de julgar qualquer coisa que tenha contato querendo saber qual a finalidade com a qual o escritor a escreveu, ame o que está lendo e/ou ouvindo. Ame ao escritor e ao que ele está escrevendo, ao invés de querer saber se aquilo está certo ou errado, é bom ou mau.

Amar não significa seguir, subjugar-se ou adotar para si o pensamento alheio, mas ser benevolente e indulgente com o que o outro escreveu, mesmo que você não concorde com ele.

Ame tudo o que todos fazem, este é o ensinamento de Cristo. Ame não apenas aquilo com que você concorda, que acha ‘certo’, mas ame tudo que acontece, pois só assim você pratica a caridade.

Afinal, você nasceu apenas para provar que é capaz de amar a tudo e a todos indiscriminadamente. E, se a única coisa que deve fazer é amar, para que saber a intenção do próximo? Não importa qual seja ela, você terá que amá-lo.

Virtude e vício

Fé viva

“905. Alguns autores hão publicado belíssimas obras de grande moral, que auxiliam o progresso da humanidade, das quais, porém, nenhum proveito tiraram eles. Ser-lhes-á levado em conta, como Espíritos, o bem a que suas obras hajam dado lugar? ‘A moral sem as ações é o mesmo que a semente sem o trabalho. De que vos serve a semente, se não a fazeis dar frutos que vos alimentem? Grave é a culpa desses homens, porque dispunham de inteligência para compreender. Não praticando as máximas que ofereciam aos outros, renunciaram a colher-lhes os frutos”.

Eis, neste trecho, uma das maiores lições que toda espiritualidade tenta sempre passar aos irmãos encarnados: a fé morta, o conhecimento morto. Não só o escritor, o chamado mestre, mas também o leitor que recebe os ensinamentos, quem não os coloca em prática, nada consegue como aproveitamento na sua encarnação no sentido da elevação espiritual. Tudo aquilo que se ‘aprende’ precisa ser ‘usado’ para tenha alguma valia.

Deixe-me dizer uma coisa que os seres humanizados sabem, mas que se esquecem constantemente. O amor e o conhecimento são dois elementos que jamais se gastam: quanto mais se pratica ou divide, eles se multiplicam. Quanto mais você amar, mais amor receberá; quanto mais você divide o que sabe, mais aprende.

Aquele que lê ou que escreve objetivando ganhar individualmente, para aumentar sua notoriedade, age como os antigos piratas que enterravam seus tesouros numa ilha deserta ou no fundo do mar e não usufruíam dele. O tesouro enterrado não vale de nada: para que ele tenha importância é preciso que esteja em rotatividade.

É isto que Cristo ensinou através da Parábola dos Talentos ou Parábola dos Três Empregados.

NOTA: Íntegra da parábola dos talentos se encontra em Mateus – 25,14-30.

O escravo que enterrou o bem que recebeu do Senhor para devolvê-lo intacto, foi considerado como preguiçoso e infiel e, por isso, foi ‘punido’ através do seu desterro para o lugar onde existe o ‘ranger de dentes’. Ou seja, é o espírito que não pratica o amor e não objetiva auxiliar o próximo durante a sua existência espiritual e que, por isso, é preciso ser constantemente remetido às encarnações.

A fé viva, a ação espiritual que liberta o ser universal da roda da sansara (encarnações), então, é aquela onde existe a prática daquilo que se recebe do Pai, seja em carga sentimental ou cultural, sem guardar este patrimônio para si.

Mas, como será isso na prática? Como viver com a fé viva? Transformando o ensinamento que se recebe em fundamento de nossa existência. Ou seja, colocando o bem que o Senhor deixou sob nossa responsabilidade para que renda lucros, como foi o caso daqueles empregados da parábola que foram considerados como trabalhadores e fiéis.

Quem recebeu o tesouro do ensinamento cristão precisa colocá-lo em prática. Ou seja, precisa amar a todos e a tudo incondicionalmente, escolher a que senhor servir, buscar amealhar bens no céu ao invés de amontoá-los na carne... Aquele que não transforma tais ensinamentos em fundamentos da existência carnal, ou seja, que ainda condiciona o seu amor e que busca a elevação espiritual mas não abre mão de gozar o prazer material, este está escondendo o tesouro recebido de Cristo.

Da mesma forma aqueles que receberam tesouros de outros mestres precisam colocá-los em prática para que vivam a fé viva. De que adianta se dizer hindu, praticar a meditação e a yoga se na sua existência o que lhe vem à mente não é considerado como maya? De que adianta se dizer budista se a libertação das paixões e desejos oriundos dos cinco agregados ainda não se transformou em realidade? De nada.

De nada adianta o ser humanizado dizer-se sábio, que conhece os ensinamentos dos mestres da humanidade, se na hora da vivência dos acontecimentos da vida ainda acredita nas ilusões (mayas) que o ego cria, se não ama a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo e se não pratica a compreensão correta e todos os outros elementos do Nobre Caminho Óctuplo.

Para alcançar a elevação espiritual é preciso que se tenha praticado aquilo que aprendeu. Na hora da verificação do que foi realizado durante a encarnação, de nada adiantará a notoriedade que qualquer um tenha alcançado por ter aprendido (saber), mas somente aquilo que ele realizou com o que aprendeu. Por isso é muito fácil aprender, mas é difícil praticar o que se aprende.

A prática daquilo que se recebe é, portanto, a realização.

Virtude e vício

Orgulho e soberba

“906. Será passível de censura o homem, por ter consciência do bem que faz e por confessá-lo a si mesmo? ‘Pois que pode ter consciência do mal que pratica do bem igualmente deve tê-la, a fim de saber se andou bem ou mal. Pesando todos os seus atos na balança da lei de Deus e, sobretudo, na da lei da justiça, amor e caridade, é que poderá dizer a si mesmo se suas obras são boas ou más, que as poderá aprovar ou desaprovar. Não se lhe pode, por- tanto, censurar que reconheça haver triunfado dos maus pendores e que se sinta satisfeito, desde que de tal não se envaideça, porque então cairia noutra falta” (919).

Neste trecho o Espírito da Verdade aborda um tema que já conversamos por diversas vezes: o orgulho. Como já afirmamos anteriormente, e agora constatamos que o Espírito da Verdade também o diz, muitos querem castrar o orgulho, mas ele é necessário para o espírito no seu processo de evolução. Deixe-me explicar.

Orgulho é a sensação do dever cumprido, da realização. Sem o orgulho o espírito estagna no processo de elevação espiritual, ou seja, não realiza mais nada. Por quê? Porque não parte para uma nova aventura com a confiança de que pode realizar.

Desta forma, posso afirmar que o orgulho de ter realizado alguma coisa é fundamental para a elevação espiritual. No entanto, quando o orgulho se transforma em soberba, surge um entrave à marcha rumo a Deus.

O que é soberba? A soberba ocorre quando o ser humanizado ao ter a sensação de dever cumprido se eleva frente ao próximo rebaixando-o.

‘Eu fiz, você não, por isso sou melhor que você’. Aí está o problema para a elevação espiritual. Se este espírito houvesse parado no ‘eu fiz’, teria tido apenas orgulho e isso lhe motivaria a ter confiança em novas vitórias.

Quando o ser humanizado ultrapassa o orgulho atingindo a soberba através do enaltecimento a si mesmo e a crítica ao próximo, acaba o amor entre irmãos universais. Na soberba se denota a falta de caridade porque houve a crítica oriunda de um julgamento que não reflete a benevolência, a indulgência e o perdão.

O orgulho não pode se misturar com a vaidade. Ele precisa ser humilde, ser vivenciado com humildade. Quem vivencia as situações de conquista com humildade tem a sensação de ter conseguido realizar, mas não precisa acrescentar a isso a acusação ao próximo de não ter lutado ou de não ter sabido conseguir realizar.

Aquele que vivencia suas conquistas com orgulho louva a Deus porque fez, mas não se sente ‘melhor’ ou ‘maior’ porque realizou, nem considera o outro ‘pior’ ou ‘menor’ porque não fez.

Aí está, portanto, algo que precisa ser alterado nas religiões e na busca pelo espiritualismo como um todo no planeta Terra. É necessário se alterar urgentemente o conceito do orgulho, descobrindo a soberba, para se manter a força motriz que leva o espírito em frente no caminhar em direção ao Pai.